Com tantos problemas prementes a chatear toda a gente, agora levanta-se a questão do problema premente duma minoria de gente.
As posições dum lado e do outro são radicais e coincidem com as posições em relação à interrupção da gravidez. Os católicos e os conservadores em geral (não são sinónimos?) são contra uma e outra coisa, e os ateus, agnósticos e liberais em geral são a favor das duas.
Os conservadores, não querendo utilizar os seus argumentos reais, que são logo ridicularizados como antiquados e fora do mundo actual, entrincheiram-se na questão do referendo. Isto porque sabem que num referendo a probabilidade de ganhar é enorme. A maioria da população não vê com bons olhos que alterem o “seu” casamento e é homofóbica. Compreende-se a sua posição emocional, mas de facto não têm razão.
Vamos por partes.
Do ponto de vista da legitimidade de decidir na Assembleia, ou seja, da legitimidade da Assembleia tomar tal decisão, não me parece que haja dúvidas. A Assembleia pode fazer leis, e para isso foi mandatada pelo voto. A maioria da Assembleia (PS, BE e PCP), que representa a maioria da população, tem poderes para tal. Quando as pessoas votaram sabiam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo estava nos programas destes partidos.
Quanto à questão ética, que é a mais importante, há diferenças que justificavam um referendo em relação à interrupção da gravidez e não justificam um referendo em relação ao casamento homossexual.
A interrupção da gravidez tem a ver com o conceito de vida e do direito à morte. A maioria das religiões opõe-se à liberdade do indivíduo decidir sobre a morte (dele próprio e dos outros) e considera que é um assassinato, portanto um crime que não pode ser sancionado pelo Estado. No caso do assassinato, como no roubo, não se pode dizer que quem é contra não o cometa, porque o comete contra outro. Isto exigia um referendo.
Agora, o casamento entre pessoas do mesmo sexo só as afecta a elas e não há terceiros envolvidos. Portanto pode dizer-se que quem é contra não o pratique. É apenas um direito duma minoria, e como tal deve ser defendido pela Assembleia, assim como defende outros tipos de descriminação. Certamente que a maioria da população é contra, mas não tem nada com isso.
Claro que logo a seguir se levanta a questão da adopção de filhos por casais homossexuais. Quando o casamento se tornar legal, o problema vai levantar-se imediatamente. Só de pensar nisso, os conservadores ficam de pelo eriçado. A última decadência. E o último argumento.
Faz-lhes confusão as crianças serem educadas por homossexuais. Mas não lhes faz confusão as crianças serem educadas por casais disfuncionais, desavindos, litigiosos, violentos, etc. Nem lhes faz confusão as crianças serem educadas em reformatórios, asilos e abrigos. Não é possível dizer à priori se um casal homossexual educa melhor ou pior do que um heterossexual, ou uma mãe solteira, ou um pai sozinho. Fica exposta a “valores errados”? Basta ler o histórico dos heterossexuais em relação às crianças (qualquer Correio da Manhã, em qualquer dia) para se perceber quantas crianças são expostas constantemente a violências, abandono, violações, descaso, etc. Cada caso é um caso e não há generalizações.
Mas, entretanto, juridicamente o caso nem se coloca,. A lei já diz que uma criança pode ser adoptada por um adulto sozinho, ou por um casal. No primeiro caso, o homossexual só tem de dizer que é sozinho para se poder candidatar. No segundo, sendo o casamento heterossexual aprovado por lei, a lei não diz que tipo de casal, portanto os gays e as lésbicas ficam automaticamente incluídos.
Há uma coisa que sempre me deixou perplexo: porque é que os conservadores querem obrigar os outros a agir segundo os seus padrões? Os liberais não os impedem de continuarem a ser como querem. Quem quiser viver segundo os preceitos da Santa Madre Igreja (ou de qualquer outra proposta de vida) está à vontade.
Mas o facto é que não está; fica agressivo por o vizinho não seguir os mesmos ditames. Agora já não têm força para o fazer, mas tempos houve em que queimavam na fogueira quem não pensasse da mesma maneira.
Ora, vão-se lixar!
(Declaração de interesses: sou heterossexual convicto e tive uma educação católica completa.)
Segui atentamente o longo período eleitoral. Ouvi os discursos, ponderei os comentários, avaliei as sondagens. Os resultados parecem-me razoáveis.
Aliás, uma das razões porque acredito na democracia é porque vejo os eleitores escolherem sistematicamente segundo uma lógica de interesse colectivo. Como se o somatório de todos os votantes fosse uma personalidade um pouco temperamental, é certo, mas perfeitamente pertinente.
As explicações posteriores (porque é que ganhou este e perdeu aquele) parecem-me muito convolutas, porque na verdade é muito simples e faz todo o sentido.
Vejamos:
Nas europeias essa personalidade colectiva, somatório de todos nós, pensou o seguinte: (a) Sócrates tem uma política que, em termos gerais está correcta, isto é, no bom sentido; (b) Sócrates tornou-se demasiadamente arrogante, fez uma série de disparates e tem sérias questões de carácter; (c) o resultado concreto da eleição não faz a mínima diferença, uma vez que os nossos representantes em Bruxelas não têm qualquer poder real.
Assim sendo, aqui está uma boa oportunidade de lhe mostrar um cartão amarelo e pregar-lhe um bom susto.
Um outro factor, importante mas não determinante, foi a escolha dos candidatos. Vital Moreira é um totó completamente inepto, desfasado da realidade, enquanto Paulo Rangel é um tipo novo, cheio de energia e focado nas questões.
Portanto, o resultado da eleição foi uma derrota substancial do PS, mostrando-lhe que precisa de mudar de atitude, e uma vitória do PSD, que precisa de alento para se tornar uma oposição credível — tudo isto sem mudar as políticas actuais, que têm aguentado a crise e poderão eventualmente tirar-nos do buraco.
Entre as europeias e as legislativas, Sócrates fez uma tentativa caricata de mudar de atitude — ninguém acreditou numa mudança real, mas viu que ele estava disposto a tentar, o que pode ser o suficiente.
Assim, nas legislativas a tal personalidade colectiva deu a Sócrates a possibilidade de continuar com as suas políticas, mas com a obrigação de mudar de atitude. Mais atento aos efeitos colaterais, menos triunfalista. “Vais governar, mas vais ter de moderar a tua arrogância. E pensar duas vezes antes de fazer o que quer que seja.”
Também nestas eleições houve um segundo factor, idêntico ao das europeias, mas no sentido contrário: Ferreira Leite mostrou-se completamente desastrada e desfasada da realidade, enquanto a campanha de Sócrates foi eficiente e competente.
E assim, estamos como queríamos, dentro das possibilidades que nos foram apresentadas: continuidade e estabilidade das políticas que parecem boas (mais ou menos erros e disparates), mas com um controle maior dos exageros de forma e conteúdo. Vamos experimentar a democracia parlamentar a sério, ou seja, que precisa de constantes negociações e consensos. Porque não? Se o sistema de maioria absoluta provou ter problemas graves, toca a tentar a outra hipótese.
Então e os outros partidos? Bem, a personalidade colectiva não quer fazer experiências demasiado radicais, à esquerda ou à direita. As coisas já são más como estão. Nada de arriscar soluções que podem não funcionar e vão fazer perder um tempo e dinheiro preciosos. Mas é bom que esses partidos tenham força, para o equilíbrio geral. Portanto toca de lhes dar votos suficientes para que vivam e incomodem.
Finalmente, as autárquicas. Aqui a lógica é completamente diferente. O que queremos é uma boa gestão da nossa cidade. A ideologia não é tão importante; seja de esquerda ou de direita, a autarquia não pode mudar fundamentalmente as regras do jogo e o que tem de fazer é gerir bem. Votamos nas pessoas. (Isto está empiricamente provado, com os autarcas que mudam de partido ou passam a independentes e continuam com a mesma votação.)
A utilidade do autarca é de tal maneira importante que votamos nele mesmo que seja um aldrabão ou um corrupto. O que interessa é que faça bem. (Por isso Isaltino ganhou. Fátima perdeu porque no último mandato passou mais tempo a tratar dos seus problemas judiciais, pagos com dinheiro público, do que a gerir Felgueiras.)
No caso de Lisboa, é evidente. Santana Lopes estourou com os cofres municipais e fez um túnel (mais sete piscinas que estão fechadas porque não se previu a manutenção). Gastou dois milhões de euros no projecto para o Parque Mayer que nunca arrancou. Fez uma negociata com o Casino de Lisboa. Finalmente, foi-se embora quando lhe ofereceram um cargo melhor e deixou um tipo ainda mais incompetente e patife no seu lugar. Não há nenhum charme nem conversa que possa contornar estes factos.
Costa fez pouco, mas foi porque teve pouco tempo, e passou-o a endireitar as finanças. Tem um projecto de pequenas obras úteis, que é exactamente o que a cidade precisa.
Não é preciso fazer leituras mais complicadas. Foi isto que se passou. Esta expresso nos fóruns de opinião das televisões, nos comentários aos blogues e notícias dos jornais online.
É interessante como os políticos desprezam a sabedoria popular, quando é evidente que ela existe. Posso não concordar com ela, mas é impossível não lhe reconhecer a existência. O “povinho” está atento e vota segundo os seus interesses. A democracia funciona.
Não tenho escrito porque nada de novo tenho a declarar sobre os muitos acontecimentos do noticiário. Quer dizer, opiniões tenho, e até muitas, mas nenhuma delas é diferente das outras muitas que se têm lido por aí. Sempre pensei que este blogue não era para fazer saber o que eu penso sobre as coisas, mas para acrescentar alguma mais valia à discussão. Ou seja, não tendo um ângulo diferente ou uma nova opinião, não vale a pena estar a encher espaço com mais do mesmo.
Entretanto, também acompanho o que se passa no mundo, e o mundo anda um bocado afastado dos noticiários e da opinião pública, em parte porque a política nacional está a absorver todas as atenções (e o futebol, claro; mas isso é sempre). Fala-se por alto e en passant das coisas mais impressionantes — a luta de Obama para haver um SNS nos Estados Unidos, a situação cada vez mais perdida no Afganistão, e casos pontuais.
Mas, neste mundo em mudança, não param de acontecer coisas impressionantes e, possivelmente, com repercussões dramáticas.
Por exemplo, a polémica dos da venda de órgãos por soldados israelitas. Saiu no jornal dinamarquês Aftonbladet que as tropas das forças do IDF (as iniciais como é conhecido o exército de Tel-Aviv) tinham por hábito matar indiscriminadamente palestinianos para lhes tirar e vender orgãos.
Os israelitas exigem que o Governo dinamarquês peça desculpas e repudie publicamente o artigo. Os dinamarqueses dizem que a liberdade de imprensa do país deles é intocável e não responsabiliza o Governo.
É interessante que os israelitas não se incomodaram a provar que o artigo não diz a verdade, limitando-se a desmentidos formais.
Na sequência desta disputa, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca (que está a presidir à União Europeia) cancelou
sine die uma visita que ia fazer a Israel.
Entretanto já veio um senador americano meter-se ao barulho, a dizer que a liberdade de imprensa tem limites, e que um deles é o anti-semitismo.
Leio isto tudo perplexo.
É evidente que a imprensa dinamarquesa pode publicar o que quiser e o governo não tem de pedir desculpas a ninguém por isso.
É estranho que os israelitas não apresentem provas concretas de que a história não é verdadeira. Talvez seja. É sabido que os israelitas são os maiores utilizadores de orgãos comprados aos miseráveis da Bósnia, Roménia, etc. As operações trocas e operações em Instambul. Isso está documentado e ninguém contestou (nem fez nada para impedir).
É significativo que o Israel, que é uma democracia e tem uma imprensa livre, faça uma interpretação tão grosseira e errada dos deveres e possibilidades do Governo dinamarquês.
É lamentável que não se possa dizer nada menos abonatório sobre Israel sem que se acene com a bandeira do anti-semitismo. Eles são justos, impecáveis, cheios de compaixão e vítimas do ódio incompreensível dos árabes, que insistem em querer matá-los todos sem razão aparente. Tudo o que se disser que saia fora disto, ou embacie um pouco a imagem, é anti-semitismo.
Dentro da mesma questão mas na barricada oposta, continuam a surgir relatos, sobretudo na Grã Bretanha e na Holanda, da crescente cedência dos poderes constituídos às exigências religiosas dos muçulmanos que vivem nesses países. Aparentemente só a França não está disposta a torcer a liberdade para acomodar os extremistas (se bem que a história do véu nas escolas me parecesse um exagero). A última que soube é que há tribunais na Holanda que levam em conta a Sharia quando julgam muçulmanos. Seria mais ou menos o mesmo se os tribunais levassem em conta a Inquisição quando julgam cristãos romanos. Já tivemos disso e sabemos como é.
Parece evidente os imigrantes têm de e acomodar aos costumes do país hospedeiro. Imigraram voluntariamente, sabendo o que os esperava. Se os incomodava tanto, fossem para outro país. Ou podem utilizar os meios democráticos para tentar mudar esses costumes.
A Europa está numa situação cada vez mais crítica, completamente dependente de países difíceis ou potencialmente inimigos para o abastecimento de energia, sem umas forças armadas que se vejam, com uma baixa taxa de natalidade, a ceder em questões fundamentais pelas quais derramou muito sangue, etc. etc.
Estas são as bandeiras da extrema-direita, mas onde a extrema-direita está errada é nas soluções que apresenta. Porque os problemas existem, e não é inorando-os que eles se vão embora.
Nós aqui, preocupados com a nossa própria miséria, não ligamos muito ao que se passa lá fora. Mas o que se passa lá fora é que irá determinar o nosso futuro.
Isto não é perplexante, é assustador.
Esperado com muita curiosidade (dos consumidores de informação em geral), algum cepticismo (dos habituais críticos, sempre a prever o pior) e um pouco de hostilidade mal disfarçada (dos concorrentes) o jornal i lá saiu na quinta-feira.
No clima de débacle em que vive a imprensa escrita, em Portugal e no mundo, lançar um novo jornal diário parece um atrevimento... ou um disparate. Não estão os jornais a fechar às dezenas por mês, no culminar de uma crise que já tem anos, mas que a combinação da depressão com as novas tecnologias tornou inexorável e iminente? No nosso país ainda não fechou nenhum, mas as tiragens têm vindo a descer — isto partindo já de tiragens baixas — e os prejuízos a aumentar. Para este ano já foram anunciadas algumas fatalidades, e entretanto os jornalistas têm sido despedidos às dezenas. Embora a Internet seja considerada a maior responsável por esta situação (mas não a única), a questão é que a passagem do papel para o ecrã ainda não encontrou um modelo de negócio possível. Para dar um único exemplo, o New York Times tem um milhão de leitores em papel e vinte milhões na net, e no entanto ainda não conseguiu fazer dinheiro com o seu site. Sem receitas, não é possível transferir para a rede as “seguranças” da circulação impressa: profissionalismo, investigação certificada e responsabilização. Por mais que os sites ou os blogues sejam interessantes, rápidos e abrangentes, é difícil distinguir a prata da lata em páginas anónimas, sectárias, escritas por diletantes, ou pejadas de intenções ocultas. A informação na net, como toda a informação, precisa de dinheiro para viver saudavelmente. Um dia encontrar-se-á o modelo, mas ainda não aconteceu, e o período de transição pode levar anos — tarde demais para a maioria dos jornais e revistas.
Neste clima, seria suicídio fazer apenas mais um jornal, igual aos outros. Nenhuma diferença de cor política, de perspectiva editorial ou de qualidade dos profissionais seria suficientemente para dar a outro jornal a vantagem competitiva suficiente. Então, a única possibilidade seria apostar num modelo diferente.
Foi isso que fez o i. A nosso ver, não se trata de um jornal em papel que, como qualquer outro, tem o seu site. É isso que todos fazem, e não está a resultar. Também não se trata de um jornal exclusivamente na internet, porque até agora nenhum (Daily Beast, First Post, The Huffington Post, para citar os mais notáveis) conseguiu a massa crítica e as receitas necessárias.
Não, o i é um jornal na internet que também tem uma edição impressa. Ou seja, tem a estrutura, o funcionamento e a organização que lhe permitem fazer a passagem para a exclusividade electrónica à cadência que o mercado permitir. Poderá continuar assim, “híbrido”, durante um ano ou dez anos. Neste sentido, parece-nos a melhor aposta — a única, realmente — neste momento.
O i internético é o mais avançado que já vimos, mesmo comparado com os acima citados — e está a milhas de distância de outros jornais portugueses que, tal como o NY Times, Guardian, Figaro, etc., simplesmente colocam na net as suas páginas escritas. A navegação, os roll-ons, o grafismo, tudo foi pensado de raiz para a net, e portanto já nada tem a ver com as colunas de texto com anúncios à direita e um mpeg aqui e ali. Tem inclusive, possibilidades de interactividade superiores ao simples comentário do leitor; aceita colaborações espontâneas, sugestões e imagens de quem o lê. Se os leitores quiserem, poderá ser um espécie de núcleo de rede social.
Seja qual for o seu percurso, à partida já é um case study do jornalismo mundial. Muito bem.
Agora, quanto às questões se é bonito ou feio, bem escrito ou mal escrito, se a edição é pertinente ou superficial, se fala disto ou daquilo — bom, isso é outra história. No país dos dez milhões de críticos (incluindo velhos gagás e crianças recém-nascidas), as opiniões dividem-se. Algumas são mesmo ridículas, como por exemplo que o facto do endereço principal ter a palavra “contenidos” querer dizer que foi feito por espanhóis — isto dito no tom de que espanhol é “suspeito”. Ou que a fotografia da capa do primeiro número não devia ser a preto e branco. Ou se cinco colunas é melhor do quatro ou pior do que três. São questões de lana caprina, sem qualquer interesse para a grande questão de saber se temos um jornal de referência, bem documentado e bem opinativo.
Ora, para saber se temos, precisamos de tempo. Um jornal diário não pode ser avaliado pelo primeiro número, nem pelos primeiros dez. Um mês, pelo menos. Seis meses, com certeza.
Agora, há coisas que se percebem logo: o grafismo é excelente, não só por ser bonito, mas por dar uma leitura fácil e confortável, com visões amplas e desimpedidas. A escolha de temas é equilibrada e tem personalidade, com os velhos assuntos abordados com frescura, e novos assuntos que normalmente só aparecem nas revistas. Sente-se uma curiosidade da parte da redacção, um dinamismo e uma vontade de fazer com arte e com graça. Há textos grandes e pequenos, mas sobretudo pequenos, porque hoje em dia os leitores querem saber depressa, com poucos gongorismos, directo ao assunto.
A nova divisão de secções, não sendo uma questão fundamental, parece estar mais de acordo com a maneira de pensar actual. (Por exemplo, a mistura do nacional com o internacional, numa época em que as notícias são instantâneas no mundo inteiro e o que acontece no nosso bairro é tão importante como o que acontece na China.) E tanto a edição em papel como a online, sendo interdependentes, parecem ter vida própria. Pode viver-se só com uma delas, ou com as duas.
Resumindo, o í é uma mais valia entusiasmante, num tempo em que as valias parecem todas menos. É sempre fascinante ver nascer um conceito novo — e ter consciência, no momento em que se vê, que se está a ver.
(Declaração de interesses: sim, é verdade que colaboro no i. Mas não participei no projecto nem tive qualquer conhecimento prévio do que seria; só o vi na quinta-feira, como toda a gente. E o meu relacionamento com a redacção é apenas profissional.)
Pois é, saiu a edição portuguesa da revista Playboy. Cinquenta e cinco anos depois de aparecer nos Estados Unidos, trinta e cinco depois de ser possível em Portugal. Numa altura em que as revistas lutam desesperadamente para não desaparecer, sobrepujadas por uma conjuntura económica desfavorável e mudanças inexoráveis nos hábitos dos leitores. Nesta conjuntura, propõe-se vender 80 mil exemplares, uma tiragem de topo para a média nacional. (A Maxmen e a FHM, com tiragens descendentes, declararam 48 mil e 60 mil no último trimestre de 2008).
Grande “aposta”, portanto. Uma empresa americana (Fresta Corporation), com interesses dos mais variados (tecnologias, cuidados de saúde, investimentos e têxteis), comprou os direitos da quase defunta Playboy americana e decidiu gastar uns milhões de euros nesta aventura.
Porquê, é impossível saber, ou mesmo especular. Ganhar dinheiro — a motivação mais evidente — não será com certeza. Alguma paixão do Sr. Hugo Fresta por este país, acompanhada por um desprendimento estranho pelo seu rico dinheirinho... Não faz sentido mas dinheiro é dele, gasta-o como quiser.
Mas podemos pensar se vale a pena.
Ou seja, se a Playboy traz algo que não tenhamos e que precisemos — ao ponto de pagarmos 3,95€ por mês, quando as revistas já andam perto dos 2€ e praticamente todos os conteúdos estão disponíveis de borla na Internet.
Para sabermos se vale a pena, temos duas abordagens possíveis: primeiro, ver qual é o valor intrínseco do conceito Playboy; segundo considerar o valor específico desta edição nacional.
Quando apareceu nos Estados Unidos, em 1953, a Playboy representou não só um conceito novo de revista como também uma abordagem nova do sexo e do comportamento. A sua “filosofia”, como Hefner lhe chamou logo à partida, foi uma autêntica pedrada no charco: basicamente, que o sexo é uma actividade natural própria de pessoas normais, que o consumo é moralmente correcto e que todas as ideias (políticas, culturais) podem e devem ser discutidas. Ao longo de uma batalha dura com a censura oficial e os preconceitos calvinistas do país, a Playboy ganhou estatuto, e não só como uma revista de gajas nuas: juntamente com a Esquire e a New Yorker, lutou por todas as causas por que valia a pena lutar (contra a Guerra do Vietname, por exemplo), mostrou o pensamento dos melhores intelectuais, exibiu ficção dos mais notáveis escritores e apresentou a arte dos mais arrojados criadores. Teatro, cinema, humor, ideias, tendências, modas e contra-modas — tudo passou pelas suas páginas, no meio das tais gajas nuas, que cada vez pareciam menos gajas e menos nuas.
Depois, e como todos os revolucionários, a Playboy foi vítima da sua revolução. A liberalização de costumes que tanto tinha defendido ultrapassou-a e acabou por fazê-la parecer careta, parva, fora de foco. As discussões que provocara estavam resolvidas. Passou ao edonismo puro e simples, sem uma causa que o desculpasse.
Resumindo, envelheceu com os seus leitores e perdeu a graça. Apareceram outras revistas mais ousadas, mais cultas e mais contemporâneas. As suas mulheres, pintadas e retocadas, ficaram provincianas, artificiais e, mais uma vez, gajas. As causas que defendeu, ganhas ou perdidas, passaram para outros fóruns.
A chegada da Internet foi apenas o toque final na debacle. De uma tiragem de milhões, passou para as poucas centenas de milhares. Os clubes fecharam, as franchises secaram. A marca, pirateada e ridicularizada, perdeu o significado.
Como fenómeno, e mesmo como negócio, a Playboy acabou.
Mas, se a Playboy americana não se modernizou, nada impediria que o conceito fosse adaptado aos nossos tempos noutra Playboy qualquer. Seria possível usar a marca para lançar uma revista mais consonante com a actualidade — com o humor da Wallpaper, o glamour da Vanity Fair e a atitude da Monocle, por exemplo. Até poderia ter mulheres nuas, mas mulheres de hoje, que têm outra atitude quando se despem e se despem noutras circunstâncias.
Nada disso.
A Playboy portuguesa é apenas e simplesmente uma cópia tuga da Playboy americana dos anos 1950. Até em Portugal já se fizeram revistas mais contemporâneas e interessantes, com marcas da casa. Assim de repente, e sem pensar muito, a Kapa, a DNA e a Ícon, por exemplo.
Mesmo dentro do conceito da época de ouro da Playboy — a década de 1960 — é uma revista muito fraquinha. Falta-lhe conteúdo e, sobretudo, falta-lhe atitude.
Por exemplo, as entrevistas Playboy. Na americana, algumas ficaram famosas pelos entrevistados, que incluíram centenas de figuras públicas, formadores de opinião, inovadores e agitadores. Todas elas eram feitas segundo uma técnica particular: dezenas de horas de gravação, ao longo de várias sessões, em que se falava de tudo, para além da especialidade do entrevistado: religião, política, sexo, valores, gostos. As entrevistas da Playboy, editadas depois em vários livros, são um resumo do pensamento da época e uma lista de pessoas de todos os quadrantes, todas elas com algo a dizer.
Quem é que a edição tuga escolheu? Um político, filósofo, opinion-maker, provocador? Não, escolheu o jogador de futebol Costinha, que pode ser uma pessoa estimável, mas cuja carreira que vai do madeirense Machico ao Atalanta de Bérgamo. Em 41 perguntas, nove são do teor “Qual é o seu costureiro preferido?”, ou “Gostou de privar com a realeza monegasca?” e as restantes 32 falam de futebol. Ficamos com opiniões como “Para mim, o Pinto da Costa é um senhor... Faz aquilo que qualquer presidente tem de fazer por um clube...”
Melhor é a entrevista a Pacman, dos da Weasel — superficial, mas pelo menos fala de tudo um pouco e esclarece alguma coisa. Como ele diz, “um gajo fica um bocado burro com a bola”.
Depois há um artigo do patrão, Hugo Fresta, sobre “como enriquecer durante a crise” — isto de um homem que, pelos vistos, está decidido a perder dinheiro...
Ainda nas peças “pesadas” temos uma relato da tráfego de droga na Guiné, coisa sabida e já publicada em toda a parte.
Pedro Paixão e Nuno Markl emprestam duas páginas de crónica e Nuno Saraiva duas páginas de BD. Fora isso, as sessões habituais: viagens, produtos de consumo, anedotas e consultório sentimental.
Desta vez vai ser difícil dizer que se compra a Playboy pelos textos e não pelas gajas.
Ah, sim, as gajas. São uma questão de gosto, pode-se sempre dizer bem ou mal. Rute Penedo, a centerfold, é uma “artista plástica” — ficamos a saber que frequentou Artes Plásticas em Évora, daí o título desta guia turística em Ubatuba e modelo, amante da natureza e do body-board. A da capa, Mónica Sofia, participou na “Quinta das Celebridades” e na banda “Delirium”. Há outras, inclusive páginas de repescagem das Playboy históricas — que estão todas disponíveis na Internet, textos e imagens.
Aliás, as fotografias não são grande coisa e a impressão é francamente má. Para não falar na direcção de arte, antiquada e pouco imaginativa. E não é que falte que faça bem cá na terrinha; olhe-se, por exemplo, a série de revistas Blue.
No editorial, o director fala do “produto” e usa cinco vezes a palavra “marca”.
O que nos leva a reformular a questão inicial: este produto está de acordo com o prestígio da marca? Traz alguma coisa de que precisemos?
A resposta, infelizmente, é não. Mais uma oportunidade perdida. Se é que chegou a existir.
O Diário de Notícias, o mais antigo jornal diário em circulação, acaba de relançar a sua versão electrónica.
Poucos dias antes, uma tal “jornalista Dina” fez acusações desagradáveis a um ministro do Governo português no seu blogue particular, Escola de Lavores, e o ministro respondeu-lhe directamente, no mesmo blogue e ao mesmo nível.
Quanto ao Diário de Notícas, não é o primeiro jornal a igualar a sua prestação electrónica com a escrita (muitos dirão que já vem atrasado); o Expresso há muito que tem o seu site, de grande sucesso na diáspora. Haverá outros, de que não nos lembramos agora.
Por outro lado, o Público ainda não se pode dizer que tenha levado a Internet completamente a sério. Basta comparar a inovação gráfica e o empenho da edição em papel com o arcaismo e desleixo da electrónica. Mas a mudança é só uma questão de tempo.
E o próximo diário a ser lançado, o i, já será mais electrónico do que papelístico. Em vez do jornalista de gravador e bloco de notas e do fotografo com a Canon ao pescoço, o i vai à luta com “equipas multimedia” ataviadas com camcorders e computadores, que poderão mandar para o ar som, texto e imagem directamente da rua, em directo.
O fait-divers do blogue, além da saborosa leitura dos comentários e contra-comentários ao suposto deslize de Rui Pereira (cheios de cor local, nós diríamos) mostra a importância dada ao gossip dos bloques nas instâncias mais altas (e sem noção do ridículo...). Uma pesquisa rápida revela que a autora é Dina Soares, jornalista da Rádio Renascença, que não vê necessidade de sair do anonimato para se sair com as queixinhas. Não interessa o ridículo do caso, mas o facto do caso ser possível.
O jornalismo electrónico está rapidamente a assumir a preponderância que os teóricos já previam há anos.
O que levanta algumas questões.
Uma questão é se tem qualidade para substituir o jornalismo tradicional. A informação/opinião electrónica, com uma tradicional falta de confiabilidade, terá de melhorar substancialmente para ser credível. Uma coisa é oferecer opiniões divertidas e estórias saborosas, outra é informar com os devidos cuidados jornalísticos (duas fontes, contraditório, pesquisa, etc.)
Poder-se-ia dizer que o jornalismo tradicional, e mesmo o televisivo (que já se pode considerar tradicional, se bem que noutra tradição, já abastardada em relação ao escrito) também não apresenta grande independência dos interesses e grande confiabilidade. Contudo há uma diferença substancial entre o trabalho feito nos meios tradicionais e a boataria e o surrealismo que se vê nos blogues, ou mesmo as elações discutíveis e a superciliadade de muitos sites.
Paradoxalmente, a televisão — que se pensou que acabaria com a imprensa escrita e a a rádio, e que afinal não se revelou tão mortífera — parece não estar a sofrer com esta mudança. A televisão integrar-se-á seamlessly (sem costuras aparentes) com a internetosfera, uma vez que os computadores e os televisores estão cada vez mais próximos e eventualmente acabarão por ser fundir. Já podemos imaginar, sem entrar muito na ficção científica, um aparelhómetro portátil, talvez um ecrã flexível sem protuberâncias aparentes, onde cada um interage livremente — escolhendo o que quer ver, cinema, noticário, programas de auditório, e escrevendo e gravando som e imagem à vontade, além de evidentemente, comunicar com toda a gente através de fonia, imagem, texto e códigos de cores.
Outra questão é se o jornalismo consegue meios de subsistência — um “modelo de negócio” viável. Não os tendo, fica ainda mais sujeito do que o tradicional a “adaptar-se” aos interesses politicos económicos.
Uma vez que a mudança é inegável e, ao que parece, inexorável, não vale a pena estar agora aqui a chorar em cima do leite derramado e por as culpas nisto ou naquilo (sendo isto a internet e aquilo o modelo económico). O que é preciso é encontrar uma fórmula de aumentar a independência e a credibilidade da internetosfera (sites + blogues).
A mudança de meios pressupõe uma mudança de fontes e produtores; a partir do momento em que a informação pode ir directamente do produtor ao consumidor, sem passar por profissionais, estes tornam-se redundantes. Este fenómeno está a ocorrer agora mesmo com a Administração Obama, que contacta directamente com os cidadãos através da internet (sites, blogs e redes sociais) passando por cima da equipa de jornalistas tradicionais que vive, literalmente, nas caves da Casa Branca à cata do furo. A vantagem para o produtor é dizer o que quer, sem ter de passar pelo filtro ideológico e validatório da comunicação social.
Gostaríamos de ter conclusões insofismáveis para apresentar, propostas concretas para fazer; mas não temos. Nem fazemos. Apenas constatamos como é. E assistimos, com uma imensa curiosidade, ao desenrolar do que virá a ser.
A informação livre trazida pela electrónica, tão desejada pode acabar por ser vítima de si própria e morrer às mãos da confusão que está a criar.
Foi uma década em que eu não estive em Portugal (fiz uma visita rápida, turista apressado, em 86). Mas aconteceu muita coisa - ó se aconteceu. Contaram-me, mas ninguém me contou tanto e tão bem como Manuel Dias Coelho num artigo do Público. Aqui vai, com a devida autorização do meu amigo. É claro que com o Manel tudo adquire um ritmo frenético e uma áurea estelar, mas é precisamente o que está a faltar nesta época de tristezas!
Quando eu pensava que os Duran Duran tinham desaparecido de uma vez por todas, fui surpreendido com a notícia do lançamento, na segunda semana do próximo mês, do mais recente álbum da banda, Red Carpet Massacre, com o contributo de Timbaland. Não sou admirador da banda de Simon le Bon, mas reconheço que ela contribuiu para a imagem de renovação e de glamour kitsch que tenho dos anos 80. Nessa década marcada, no plano nacional, por recessões económicas, crises políticas, conflitos laborais e sindicais, emergia em paralelo um optimismo pouco comum na nossa maneira de ser, uma mudança no modo de pensar e de agir, uma (r)evolução nas artes, a descoberta do prazer de viajar para o estrangeiro e, pela primeira vez, o espoletar de um cosmopolitismo que cortava definitivamente com as amarras que nos prendiam a séculos de uma existência provinciana, ostracizante e bafienta. A irrupção de uma internacionalização era sentida em Lisboa, onde tudo acontecia, e, nela, no eixo Chiado/Bairro Alto. Era inegável o contágio da movida madrilena, que se espalhava por outras cidades do país vizinho. Nós olhávamos para Espanha com os olhos esbugalhados, privados de um contacto com outras capitais que ditavam as leis da modernidade, como Paris, Londres ou Nova Iorque.
Se não contarmos com a alegria colectiva que foi saborear a vida democrática, creio que o que entendendo por joie de vivre foi sentida por nós de uma forma única nos anos 80. O Bairro Alto era o palco da movida lisboeta, com os novos restaurantes, bares, galerias e lojas. Estava apagada a imagem de marginalidade e de pobreza alicerçada no tempo em que por lá proliferavam tabernas e bordéis. O Bairro era a noite de Lisboa por excelência e onde se perdiam as diferentes tribos dos “políticos”, “intelectuais”, “modernos”, “alternativos”, “betos”, “cosmopolitas” e “gays”. Só os “betos” não frequentavam o Bairro, felizmente. Ficavam-se pelas entediantes Avenida de Roma e Praça de Londres, por lugares de encontro serôdios como as pastelarias Mexicana e Roma, ou por discotecas como a Whispers e afins, se a memória não me falha.
O Bairro Alto começava a agitar-se pelas oito e meia da noite e tudo se dava por terminado pelas três ou quatro da manhã. Chegarmos a casa às quatro era “uma grande noitada”, às cinco ou seis “uma loucura”, e a partir daí “uma coisa inimaginável”. Hoje, entre a meia-noite e as duas e meia estamos na “terra de ninguém” e é impensável haver uma verdadeira agitação antes das quatro ou cinco da madrugada. A idade de quem frequentava o Bairro oscilava entre os 25 e os 55 anos, enquanto na actualidade deve manter-se nos 16/26. Convivia-se dentro de restaurantes, bares e discotecas, enquanto que o espaço de convívio, agora, é a rua. Os graffities não tinham ocupado as paredes de todos os prédios (lembro-me de, nos anos 80, haver um jovem que assinava, salvo o erro, por Grafitó, e que imprimia a sua marca em pequenos graffities pretos como aquele do homem e da mulher que se assemelhavam ao par romântico do filme Casablanca, com o dístico ‘Fim-de-semana na cidade, miséria em bando’). O lixo não se acumulava pelas ruas, não se vendia drogas impune e descaradamente, e não havia sentimento de insegurança. A Rua das Salgadeiras, então conhecida e fotografada pela grande buganvília, que ainda resiste, e pelo velho cadillac preto estacionado na convergência com a Rua da Barroca, é hoje o estaleiro eterno de obras e um urinol público a céu aberto.
Quem queria viver a noite no Bairro marcava encontro entre as oito e as nove na “Brasileira do Chiado”. Nos Verões escaldantes de então, a esplanada do mais carismático café da capital ficava repleta de gente aperaltada e não, como agora, cheia de turistas orientados pelo Guide du Routier. Uma “nuvem” de perfume parecia envolver a zona. Ao contrário do que hoje acontece, as pessoas apresentavam-se no seu melhor: irrepreensivelmente vestidas e calçadas, imaculadamente penteadas e maquilhadas, no caso das senhoras, e perfumadas com excesso com as fragrâncias bem intensas do momento. Era um sacrilégio não cuidar da imagem pessoal, seguindo os ditames da Moda. Hoje, longe desse tempo, penso que eram um tanto ou quanto ridículos certos diktats. O consumo de moda não estava ainda democratizado e massificado e os portugueses não tinham despertado para o culto das marcas. Elogiava-se a uma mulher um bonito vestido e queria saber-se onde o tinha comprado. Agora, pergunta-se de que marca é e quanto custa. As silhuetas também mudaram. Os casacos curtos com os ombros muito chumaçados, conjugados com roupas cingidas ao corpo, faziam desequilibrar as linhas do corpo, sobretudo as femininas, os sapatos tinham saltos demasiadamente altos, os jumping suits, ou fatos-macaco para senhora, inspirados na versão original de Thierry Mugler, davam um ar mecanizado, as calças drapeadas faziam lembrar os cortinados do cinema Condes. Desnudava-se um dos ombros, abusava-se dos fechos de correr, apertava-se a cintura até ao desespero. Os homens abriam os botões das camisas quase até ao ventre, exibindo os pêlos da masculinidade. Sorviam-se as criações de Gaultier, Montana, Mugler, Kenzo ou Myake. Via-se que um novo estilo emergia com Armani. Imperavam as cores vibrantes, os dourados, os metalizados e os acessórios excessivos. Havia uma regra inviolável: todos tinham de transmitir um aspecto cuidado ao pormenor. Chegou-se ao ponto de as calças de ganga serem vincadas. Na roupa não se exibia uma prega involuntária e no cabelo era crime mostrar desleixo. Os homens usavam bigode (e não se depilavam). Todos os ídolos ou símbolos sexuais masculinos o tinham, de Mark Spitz, a Burt Rynolds, passando por Robert Redford. Nos rostos femininos sobressaía a maquilhagem em tons de rosa forte nas sombras, blushs e bâtons, como se fossem inspiradas em fotografias de moda de Guy Bourdin. Os cabelos tinham poupas e ondas, inspirados em cortes como os que se viam nos video clips de Duran Duran, Classic Noveaux ou Climie Fisher.
Não sou um apreciador da moda dos anos 80 que, para mim, consubstancia a mistura “caricatural” do glamour e do kitsch. Se tiver de eleger o melhor da moda desses anos aponto os penteados, a maquilhagem e o guarda-roupa (criado por Yves Saint Laurent) de Catherine Deneuve no filme Fome de Viver/The Hunger, e as figuras de Brian Ferry, David Bowie e do baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts, ainda hoje referências de elegância no masculino. Numa época de excessos e de gostos duvidosos, havia mulheres que se mantinham num mundo à parte: Bianca Jagger, Nan Kempner, Lee Radziwill, Audrey Hepburn, Catherine Deneuve, Marisa Berenson, Marianne Faithfull e Charlotte Rampling. Por cá, entre as senhoras, destacavam-se a elegância intemporal de Greta Statter (representante do gabinete internacional de tendências Promostyl), a modernidade discreta de Manuela Gonçalves, o vanguardismo quase agressivo de Ana Salazar, a sobriedade nobre de Snu Abecassis, a irreverência cuidada de Anamar, a classe inquestionável de Madalena Fragoso, o magnetismo irresistível de Vera Lagoa, o chique natural de Maria do Céu Avelar (então primeira directora de Beleza da Máxima). Nos homens, recordo o estilo refinado e contido, que ainda perdura, de Manuel Alves, da dupla de criadores Alves/Gonçalves, de Manuel Reis, do Frágil e do Lux, e de José Luís Barbosa, da Arquitectónica e da Interna Empório Casa. Havia também quem seguisse a Moda com garbo e irreverência, fiel ao l’air du temps, como a produtora de moda Susana Marques Pinto que saía à noite de estola, chapéu, saltos muito altos e diferentes cabeleiras postiças, influencias da sua vida em Londres.
Foi também na década de 80, mais precisamente em 1988, que surgiram as primeiras revistas femininas de qualidade que continham páginas e páginas de produções de moda: a Máxima, a Elle e a Marie Claire. Havia todo um universo a explorar. Estas revistas contribuíram para a divulgação de novos talentos nos domínios da criação, da fotografia e das produções de moda, bem como de modelos e de outros profissionais ligados ao sector, designadamente maquilhadores e cabeleireiros. A Moda já ganhava estatuto em Portugal, com Ana Salazar na linha da frente, e também com os talentos de Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, Mário Matos Ribeiro e Eduarda Abbondanza, José António Tenente, Helena Redondo, Manuela Gonçalves, António Augustus, Karen Ritter, Helena Kendall, José Carlos, Zignio e Paulo Matos. Quem queria andar no último grito comprava em lojas que eram referência na capital, tais como a Maçã, de Ana Salazar, a Loja Branca, de Manuela Gonçalves, a Battaglia, a Loja das Meias, a Charlot, a Ayer, a Cravo e Canela, os Porfírios Contraste, a Casa Africana... As grandes marcas de Cosmética começavam a conquistar o mercado português e os novos perfumes para homem e senhora eram lançados com uma frequência nunca vista.
Há vinte anos, as agências de modelos eram embrionárias. O norte-americano Bryan fazia carreira com uma escola para a formação de modelos onde ensinava a desfilar. Duas modelos faziam furor: Dalila Martins e Yolanda. Esta última, que era a secretária do então presidente da Assembleia da República, Teófilo Carvalho dos Santos, provoca um pequeno tumulto sempre que entrava no hemiciclo para entregar algum documento ao presidente. Modelos como João Carlos e Tó e Mi Romano ombreavam com os melhores no estrangeiro. Manuel Alves entrou no mundo da moda como modelo e transformar-se-ia num dos mais conceituados criadores nacionais.
Havia dois lugares incontornáveis para quem se regia pelo princípio do one must see, one must bee seen, e que eram o Pap’Açorda e o Frágil, que hoje têm equivalência, respectivamente, no Bica do Sapato e no Lux. Era comum verem-se no Bairro Alto políticos como Mário Soares ou Francisco de Sá Carneiro, jornalistas como Maria João Avillez ou Miguel Esteves Cardoso, artistas plásticos como Pedro Cabrita Reis ou Pedro Croft, músicos como Amália Rodrigues ou António Variações, coreógrafos como Olga Roriz ou Louis Falco, actores como Maria de Medeiros ou Martin Sheen, criadores de moda como Ana Salazar ou Jean Paul Gaultier, gente do bel-canto ou do bailado clássico como Ileana Cotrubas ou Mikhail Barishnikov.
Os restaurantes mais procurados estavam sempre a abarrotar de gente, como o Bota Alta, o Alfaia, o Fidalgo, o 1º de Maio, o A Primavera, o Atalaia, o Pap’Açorda, o Pile ou Face, o Casanostra, o Páginas Tantas, o Mais Possível, o Bichano, o Tasca do Manel, o Baiuca e o El Ultimo Tango. Fora do Bairro, o Chez les Bananes, de José Costa Reis, fazia-lhes sombra. Ia-se tomar um copo ao Frágil, a Os Três Pastorinhos, ao Sudoeste, ao Oficina e ao Bairro Alto. As pistas de dança eram minúsculas, comparadas com as de agora, e dançava-se ao som de música cantada, isto é, havia vozes e ritmos que nos impeliam para as pistas, como os de Madonna, Michael Jackson, Simply Read, Gloria Gaynor ou The Pointer Sisters. Elegiam-se “hinos” gay nas canções It’s Raining Men e I Will Survive. Nesse tempo, e no geral das conversas na noite, notava-se que se lia pouco mas que se via e ouvia muito. Falava-se apaixonadamente das coreografias de Olga Roriz, descobria-se a música de Philip Glass, assistia-se com emoção a um espectáculo de Gal Costa, vibrava-se com um concerto de Tina Turner e ia-se quase às lágrimas com a medalha de ouro de Carlos Lopes. Filmes como Amadeus, Blade Runner ou Blue Velvet eram imperdíveis. Elogiava-se a beleza de Fanny Ardant em A Mulher do Lado, a excelência de Glenn Close em Ligações Perigosas, a revelação de Michelle Pfeiffer em Scarface, a descoberta de Daniel Day-Lewis em A Minha Bela Lavandaria. Assistia-se a discussões acaloradas entre quem estava a favor ou contra as greves gerais que ameaçavam derrubar os governos de Pinto Balsemão e de Cavaco Silva, quem apoiava ou não a demolição do Monumental, ou quem apreciava ou detestava a arquitectura de Tomás Taveira. Propagavam-se boatos infames como o das “Doce” e especulava-se impunemente sobre que mulheres estariam envolvidas no “escândalo Taveira”. Fernando Chalana e a mulher Anabela eram uma espécie de Marco e Sónia do primeiro Big Brother português e D. Branca era a única mulher idosa que merecia atenção. Consumia-se muito álcool (gin e uísque estavam no topo da lista), fumavam-se “charros” mais ou menos discretamente, e o sexo era servido à la carte até surgirem as primeiras e confusas notícias sobre a Sida. No Bairro reinavam José Miranda e Fernando Fernandes, proprietários do Pap’Açorda, e Margarida Martins, então a porteira e relações públicas do Frágil, que determinava, com mão de ferro, quem entrava ou não no bar/discoteca. Se noite não era dada por finda, rumava-se ao Jamaica, no Cais do Sodré, ao Lontra, em S. Bento, ou ao Trump’s, no Príncipe Real. Sem saudosismos, acredito que já nada tem o sabor da descoberta, do risco, da transgressão e da originalidade desse tempo. Provavelmente, nem a nova música dos Duran Duran...
A 13 de Dezembro publiquei um post, intitulado “O futuro do jornalismo?” em que falava de um ex-empregador meu, Miguel Ribeiro e Silva. O post está lá, na posição cronológica respectiva mas, para que não tenha de procurar, reproduzo aqui a parte que se lhe refere:
“Quando trabalhei na Edimpresa (que na altura se chamava Abril/Controljornal) houve uma época em que o Director-Geral era Miguel Ribeiro e Silva, um gestor muito inteligente e excêntrico — um “elefante”, no vocabulário zen-empresarial do livro de Stanley Bing. Fez um trabalho extraordinário; em poucos anos, a editora, que estava falida e à deriva, enterrada numa cave onde se ouviam os esgotos que nos passavam por cima da cabeça (entre outras situações, mais graves para o trabalho) passou a ser uma empresa organizada, computorizada, bem instalada e a produzir uma série de revistas com consistência. Logo a seguir entrou num período de expansão com novos títulos, alguns muito bem sucedidos — e outros menos, mas isso quer dizer que se apostava em projectos, havia uma postura pró-activa.
Mas não é a estória da Edimpresa que quero contar. O que vem para o caso é que o Miguel Ribeiro e Silva detestava jornalistas, que achava pouco confiáveis (como funcionários), desequilibrados e excessivamente bem pagos para o que faziam.
O sonho dele era fazer revistas sem jornalistas.
Tentou várias vezes, de várias maneiras (que não vou contar, embora desse para um livro). Na altura achava-o um guru empresarial, mas agora vejo que foi um precursor no mundo rarefeito e frenético da comunicação social.”
Depois de sair da Abril, nos idos de... deixa ver... 97, 98, por aí, nunca mais o vi. Soube que fora para a Cofina, depois para a Lusomundo, depois nada mais. E agora, de repente, por causa de uma entrevista que dei ao “Sol” (a propósito do lançamento do “Pesquisa Sentimental”) eis que Miguel Ribeiro e Silva reaparece! A partir do Sol pesquisou, chegou aqui ao Perplexo e leu o post. E mandou-me o comentário abaixo, que publico com satisfação. Ah, sim, combinamos ir almoçar.
O meu amigo Zé Couto Nogueira gosta de escrever - é mesmo um escritor encartado, com obra publicada – e, como qualquer escritor que se preza, tem aquela tendência natural para confundir a ficção e a realidade e para utilizar todo o tipo de hiperbolismos e exageros literários que não deslustram.
Claro que a realidade não é bem assim, e o facto é que “o Miguel Ribeiro e Silva NÃO detestava jornalistas, que NÃO OS achava pouco confiáveis (como funcionários), NEM desequilibrados e OU excessivamente bem pagos para o que faziam.”
Algumas das pessoas com quem o Miguel Ribeiro e Silva mais gostou de trabalhar são jornalistas, referindo-se para ilustrar a Cristina Cordeiro, o Cáceres Monteiro, o João Marcelino, o Mário Bettencourt Resendes, a Isabel Fragoso, a Maria de Lurdes Vale, o Emidio Rangel, o Thomaz Souto Correa, o Laurentino Dias e o próprio Zé Couto Nogueira, só para citar alguns mais conhecidos e com quem teve o previlégio de conviver mais de perto. O Miguel Ribeiro e Silva achava, isso sim, que os jornalistas não são todos da craveira dos mencionados, que uma parte substancial deles tomava a nuvem por Juno e que quase todos os operadores da comunicação social, de patrões - o Zé Couto Nogueira lembra-se, com certeza, que ele tambem não gostava muito de alguns destes - a jornalistas não perceberam atempadamente que o mundo (da comunicação social) como o conheciamos se aproximava do abismo.
O José Couto Nogueira não se esqueceu com certeza do Thomaz dizer que a geração dos nossos filhos já leria tudo na net. Talvez por isso, o Miguel Ribeiro e Silva começou por abraçar entusiasticamente o projecto directo.pt, depois o projecto Cofina Media/Cofina.com, até o Paulo Fernandes ter dito numa prematura entrevista que 'estava farto da internet'. Finalmente, cansado de 'pregar no deserto', o Miguel Ribeiro e Silva abraçou o projecto 100% mercenário da PT/Lusomundo, que pôs fim à sua carreira na comunicação social, quando o ex e futuro assessor de imprensa do nosso PR foi nomeado, contra a sua opinião, director do DN.
Aqui, sim, o Zé Couto Nogueira teve razão: o Miguel não gostava de todos os jornalistas ... nem dos que os manipulam, ou pressionam por razões que não são estritamente de gestão, ou da arte (e profissão), de bem fazer jornais e revistas.
Estou certo de que o Zé Couto Nogueira e o Miguel Ribeiro e Silva recordarão sempre com saudade a vivência dentro do grupo brasileiro Abril, a que ambos orgulhosamente pertenceram durante os oito anos em que estiveram juntos na Editora Abril Portugal, depois A|CJ, e que foi sempre um respaldo enorme para a defesa da independência jornalistica que, aqui e no Brasil, sempre deve marcar a profissão e o negócio.
M.R.S.
Aviso aos navegantes: este post NÃO É sobre política e NÃO É sobre a situação do “caso Freeport”. É sobre informação, e percepções transmitidas pela comunicação social.
Há muito tempo que não víamos um “caso” absorver tão grande volume de noticias e comentários, e com tamanha intensidade. Nem no apogeu de tantos processos mediáticos, como o da Casa Pia, ou o Apito Dourado, ou de Fátima Felgueiras (para citar apenas três, entre as dezenas) terá havido uma blitz semelhante.
As primeiras páginas dos jornais, capas das revistas e noticiários da televisão não falam de mais nada — a não ser a ocasional má nova sobre a crise económica e o desemprego. A partir de uma primeira notícia, que provavelmente nem deveria ter chegado ao público — uma carta rogatória enviada pela polícia britânica a pedir determinadas diligências às autoridades policiais portuguesas — a comunidade informativa começou a fazer as suas próprias investigações, debitando-as minuto a minuto nos noticiários, de onde passaram, muito naturalmente, para os comentários, colunas de opinião e debates. Antes que as pessoas pudessem ponderar sobre os pressupostos da situação, já estavam completamente baralhadas com os meandros da questão e fortemente divididas quanto às implicações e conclusões do dossier Freeport.
A primeira questão que se poderia levantar seria o envio da carta rogatória pelas vias burocráticas, como se se tratasse de uma mera diligência envolvendo cidadãos comuns. Parece estranho que as autoridades inglesas enviem semelhante bomba para Portugal sem prévias consultas diplomáticas entre governos, ou pelo menos sem um aviso do governo britânico ao português. Poderá ser atribuído, talvez, à desejável independência dos poderes (judicial e executivo) que supostamente existe nos dois países. Não nos vamos ater nisso.
A segunda questão é o facto de as autoridades inglesas terem ignorado completamente uma carta rogatória semelhante enviada pelos portugueses há cerca de quatro anos (ou três, ou cinco, tanto faz) e mandarem agora a sua, como se não houvesse precedentes. Também não vamos considerar esse assunto.
O que nos interessa são os acontecimentos desencadeados por esta última rogatória (da lá para cá).
Uma investigação é um processo lento e complicado, que envolve avanços e recuos, becos sem saída e probabilidades difíceis de validar. Muito provavelmente passa por várias mudanças de direcção, conforme as hipóteses se confirmam ou não confirmam e as suspeitas se tornam certezas ou ficam mais incertas. Acrescentando a este quadro a burocracia incontornável — autorizações judiciais para buscas, procura das pessoas a ser ouvidas, escrevinhação de relatórios, etc. — é impossível que uma investigação corra célere, ao ritmo de um filme de hora e meia. É um processo muito pouco entusiasmante, que requer paciência e dedicação, cheio de armadilhas. “O Caso Ipcress” e não “Live or let die”.
Do ponto de vista mediático, uma investigação é uma chatice.
A única maneira de a tornar interessante é, evidentemente, transformá-la no thriller que ela não pode ser. Pegar em qualquer suspeita, na hipótese mais remota, na direcção mais absurda, e colori-la com imagens intrigantes e afirmações surpreendentes.
Como os órgãos oficiais (polícias e ministério público) em princípio não revelam as suas diligências, a solução é a comunicação social fazer diligências paralelas. Ou seja, investigar ao mesmo tempo, tornando públicos todos os tais avanços e recuos, hipóteses e suspeitas, dando suspense à rotina.
Por exemplo: “Estamos aqui em frente da porta do prédio onde era a firma Neurónio Criativo... Os vizinhos não se lembram de ver ninguém neste escritório... A firma terá existido apenas durante dez meses!” Ou seja, uma tentativa falhada, a ida a um escritório que se suspeita que eventualmente terá podido ter alguma coisa a ver com uma probabilidade não confirmada, transforma-se numa peça noticiosa cheia de suspense, altamente reveladora não se sabe bem de quê — mas que só pode ser de alguma coisa suspeita.
Até mesmo as não-notícias se tornam notícias: “O que acha o Sr. Presidente deste caso?” “Não comento.” A entrevistadora vira-se para a câmara com um ar aflito: “O Sr. Presidente não quer comentar o caso...” Oh diabo! A coisa deve ser séria, se ele nem sequer quer comentar.
E mesmo na falta da não-notícia, pode-se sempre criar a notícia hipotética. A SIC, ao comentar uma reunião que terá ocorrido entre cinco envolvidos, mas não se sabe se ocorreu, fez uma infografia com uma mesa redonda e cinco bonecos sentados à volta, cada um com a sua etiqueta a dizer o seu nome.
Mas o grande furo é quando se apanha algum dos “suspeitos”, pessoas pouco habituadas a aparecer em público e que não conhecem os truques de uma boa imagem. Qualquer titubeação a uma pergunta inconveniente tem um aspecto terrível. Parecem logo culpados, ou pelo menos muito suspeitos. Se fossem inocentes não estavam ali a passar por aquilo, não é verdade?
Até mesmo quem tem larga experiência nestas armadilhas cai na esparrela. Por exemplo: o PR estava a assistir a um torneio de golfe. Lá veio a pergunta sobre o que achava da “situação” do PM. Cavaco olhou para a jornalista e disse: “Estou aqui a ver golfe... (a pensar) Não é altura para falar de assuntos... (hesitou) ... de Estado.” Conclusão: o PR acha que o caso Freeport é um assunto de Estado. Ora, não foi isso que ele quis dizer. É obvio que queria dizer “assuntos políticos, fora do foro do acontecimento, que envolvem responsabilidade institucional”. Numa palavra rápida, apanhado à má fila, recorreu a “ Estado”.
Não havendo nem notícia, nem não-notícia, nem entrevista ou não-entrevista, nem sequer notícias hipotéticas, há ainda a especulação e os comentadores. Mesas redondas, debates e frentes-a-frente sobre o que pode ser, o que pode querer dizer, que atitudes os intervenientes tomaram e quais deveriam ter tomado.
Mas não é só a televisão, com a sua voragem de notícias de hora a hora, que vai por estes caminhos. A imprensa escrita também faz o que pode. Por exemplo: “A mãe de Sócrates comprou um apartamento a uma offhsore e não recorreu ao crédito!” Aqui há gato, só pode haver. Não interessa o facto de o edifício ter sido, todo ele, comercializado por uma offshore — portanto todas as pessoas compraram a essa empresa. Também não se considera a hipótese da senhora poder ter poupanças ou bens próprios e portanto não precisar de pedir emprestado.
É claro que a postura da comunicação social tem sido criticada — não só pelos visados, muito justamente, mas também por figuras públicas e até anónimos cidadãos, que se espantam com este assassinato do bom nome de uma pessoa em tempo real. Qual é a reacção? Transformar as críticas em notícias: “Tem sido muito criticado este julgamento em praça pública de pessoas que, até prova em contrário, são inocentes”. Ora toma lá.
“O senhor acha que tem havido exagero na forma como o caso está a ser noticiado?” e segue-se meia hora de exagero. Nem mais.
The show must go on!
MacLuhan esteve certo durante muitos anos, “o meio é a mensagem”. Mas a evolução vertiginosa da tecnologia só poderia ser prevista por um génio da ficção científica (Bradbury, talvez) e não por um cientista, por mais genial que fosse. A televisão mudou a nossa maneira de nos entretermos — na protecção da casa, no conforto do sofá, a ver o mundo a passar ao vivo e a cores, em tempo real. Os computadores mudaram a nossa maneira de trabalhar. Os telemóveis, o modo de comunicar. Tecnologias previsíveis na ficção ciêntifica e nas bandas desenhadas (Dick Tracy).
Parece que ninguém previu que os três se juntassem — e de repente, quase que sem darmos por isso, foi o que aconteceu. E, apesar de já ser uma realidade, ainda vamos demorar algum tempo a habituarmo-nos.
As tecnologias não trazem apenas novos gestos e novos hábitos. A maneira de pensar também muda. A rapidez, as elações e associações. Há mais coisas dentro da cabeça, mas entram e saem mais depressa. Em cinco minutos de televisão uma pessoa recebe a informação de dez livros — as cores, as formas, a sensações e as afirmações... Cinco minutos depois já não se lembra, é verdade, porque há mais informações para entrar.
Esta situação não é boa, nem má; é. Não adianta os conservadores, os renitentes, os clássicos e os bem intencionados bramarem contra os malefícios do “progresso”. O progresso, como a religião e a morte, é inexorável.
Mas o título deste post fala de literatura. O que tem a literatura a ver com tudo isto?
Tem tudo. Hoje em dia não se escreve como se escrevia, nem se lê como se lia — às vezes nem se lê, ouve-se. Tudo (enfim, quase tudo) o que se ouve na televisão é escrito. Mas os textos de televisão (ou de cinema) são diferentes. Têm de ser mais rápidos concisos. Menos ideias de cada vez, repetidas à exaustão. Maoistas, se quiserem. Os computadores permitem editar indefinidamente, mudar as palavras com um replace, matá-las com um delete, resuscitá-las com um undo.
As pessoas já não lêem como liam, porque a cabeça habituou-se a andar mais depressa, a mudar de canal constantemente, a ver dez anúncios na rua ao mesmo tempo, aos ecrãs do Exel a passar na esgalha. E também já não escrevem como escreviam. Exceptuando Miguel Sousa Tavares, já nenhum romancista de renome narra como no século XIX. As frases são mais curtas (ou com muitas vírgulas...) as elipses mais violentas, a explicações mais rápidas. Os tempos dos verbos mudam dentro do mesmo parágrafo, às vezes dentro da mesma frase. O presente, o passado e futuro convivem na mesma página. E as cabecinhas modernas acompanham facilmente.
Então e o estilo, o sabor, o vagar? Pois, perderam-se. Uma pena. Mas há-de haver sempre um ou outro MST para cultivar os estilos arcaicos com elegância e aprumo, e há-de haver sempre leitores para os clássicos.
Agora temos os textos de ficção em blogues, em e-mails, em situações curtas e rápidas. E os livros em ecrãs paper-white. Então a ficção não continuará sempre a ter os seus calhamaços e o seu prazer? Certamente; mas em minoria, para os devotados e os especialistas. A maioria escreve e lê em pequenos ecrãs — nos ecrãs dos super smartphones, cada vez maiores e mais nítidos.
Nããão... Recados, mensagens curtas, talvez. Literatura, nunca!
Ah não? Então e o Japão? Os keitai shosetsu?
Feche a boca, que eu explico já. Rapidamente. À velocidade de hoje.
No Japão, 58% dos pré-adolescentes tem telemóvel. Para os sms da praxe, claro, mas também para ler ficção!
Keitai shosetsu é isso mesmo: ficção celular. Não só por ser escrita e lida em telefones celulares mas também porque o texto é literalmente em células. Um ecrã de cada vez.
Não estamos a falar do futuro, nem a fazer ficção científica. Está no “The New Yorker”, num artigo assinado por Dana Goodyear, portanto só pode ser verdade. Para os são tomés, aqui vai a hard data: é um negócio de 82 milhões de dólares anuais. As obras de ficção celular, são depois impressas em livro, vendem dois, três milhões de cópias. Uma obra de sucesso tem 160 mil dowloads por dia.
Não se pode ignorar nem a cultura, nem a capacidade de inovar dos japoneses. Quanto a cultura, o primeiro romance que se conhece é o Genji Monogatari, escrito por Murasaki Shikibu no começo do século XI. Quanto a inovação (neste caso no mercado editorial de ficção, deixemos os Walkman para outra altura), em 2007 cinco dos 10 romances mais vendidos eram originalmente shosetsu. Enquanto a literatura em livro diminui 20% nos últimos anos, o site da editora de shosetsu Maho i-Land (Ilha Mágica) tem mil títulos listados e 3,5 milhões de visitas mensais.
Agora, perguntarão os intelectuais: e a qualidade dessa literatura?
Bem, sobre isso... Quem somos nós para avaliar?
Mas não vale a pena estar a disfarçar: são romances de faca e alguidar, cheios de incesto, vilania, sangue, suor e lágrimas, e tudo o que possa haver de mais piroso à face da literatura. Em frases telegráficas cheias de emoticons e sinais gráficos.
Será assim que se vai escrever no futuro? Não completamente, com certeza. Mas em grande parte, disso não haja dúvidas.
Mas como o cérebro também se adapta, cada vez é possivel exprimir mais em menos palavras. Os 140 toques do twitter dão para exprimir um pensamento completo. Até mesmo um sentimento complexo. E os sentimentos, esses são eternos.
Todas as tecnologias têm de os levar em conta, porque em última análise e por causa deles que elas existem.
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