Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

O que se passa com a imprensa?

O “Público” está num processo de demissão de 70 jornalistas. De uma redacção que anda à volta de 130 (entre Lisboa e Porto), mais de metade, sobretudo os seniores (muitos deles fundadores), estão a ser convidados a sair e a negociar indemnizações. Isto porque o “Público” quer renascer com um “novo projecto”. Ora bem, ninguém pensará que José Manuel Fernandes está a despedir 70 bons jornalistas para os substituir por outros 70 jornalistas igualmente bons e mais sintonizados com esse tal “novo projecto” que ninguém, nem mesmo o próprio JMF, sabe o que será. A administração nunca aceitaria gastar milhões de euros em indemnizações para continuar a ter uma folha de pagamentos tão pesada como a actual; e JMF teria muita dificuldade em encontrar em tempo útil outros do mesmo nível que estes. Não, o que se passa é que os actuais 70 não vão ser substituídos ou, o mais provável, vão ser substituídos por 70 estagiários, ou profissionais em princípio de carreira, que custarão muito menos à administração e serão muito mais fieis e dedicados a JMF.


Não sabemos se o Público dá dinheiro ou prejuízo, pois o que sabe é bastante contraditório; às vezes fala-se que está falido, outras que afinal até deu algum lucro. Belmiro de Azevedo, o dono, certamente que poderia ganhar muito mais se tivesse investido o dinheiro num dos seus eficientes negócios. Ninguém com dinheiro – e portanto que sabe fazê-lo – investiria na comunicação social pelos lucros. Normalmente fá-lo pelo prestígio e alavancagem que ser dono de uma publicação trás, teoricamente. Em vez de gastar em relações públicas, gasta num título. Mas, como o sabe quem fez tais investimentos, também não funciona; ao contrário da impressão corrente, os donos dos jornais têm muito pouco poder nas redacções (no caso do Público, praticamente nenhum), dificilmente conseguem despedir jornalistas incómodos, e o prestígio não paga contas. (Aliás, resta saber que prestígio será esse.) Acresce que o Público, sendo hoje o único jornal diário que pode ser considerado indiscutivelmente de referência (coitado do Diário de Notícias, que agora tem qualidade, mas perdeu prestígio e leitores nas sucessivas mudanças de direcção), o Público, dizia eu, até é um título de grande valor. Seria melhor negócio para Belmiro de Azevedo vendê-lo já e fazer milhões, do que embaratecer os custos, continuar a ganhar pouco, e arriscar-se a baixar-lhe muito o valor de venda. Como negócio, esta mudança não faz sentido.


Porque fazê-la, então? Não faço a mínima ideia. Mas uma coisa é certa: ao fim de 30 e tal anos de liberdade de imprensa, o panorama da dita é triste e caminha para o melodramático. Podia-se argumentar que a imprensa escrita foi ultrapassada pelos novos tempos e as novas tecnologias, mas isso é uma simplificação pouco consistente. Das novas tecnologias, só a televisão tem força real (e que força!), mas a televisão ainda não chegou ao nível de substituir a perspectiva e as subtilezas da imprensa escrita. Nem substitui o conforto e a intimidade de ler um jornal no meio da confusão da vida urbana ou na tranquilidade do lar. A Internet tem muita graça e muita informação, mas também não conseguiu substituir os jornais. No mundo inteiro, os diários fecharam aos milhares, mas os que ficaram subiram muito de nível. São quase todos jornais de referência (estamos a falar de generalistas diários, especificamente).


No antigamente, isto é, no tempo do Botas, a vasta maioria dos jornais eram transcrições dos comunicados de imprensa oficiais e o jornalismo não tinha nível nenhum. Havia dois que se destacavam por pensar, o “República” de Raul Rego e “O Comércio do Funchal” de Vicente Jorge Silva. Censurados, na penúria, com a circulação restringida o mais possível, lá se aguentaram para mostrar que o jornalismo conseguia viver mesmo nas situações mais adversas. O “Republica”, convenientemente instalado em frente ao escritório da Censura (os artigos atravessavam a rua várias vezes, até ficarem irreconhecíveis com os aleijões) acabou por ser liquidado em plena liberdade democrática. Os comunistas, muito mais pragmáticos do que o romantismo serôdio do fim do regime, não lhe deram oportunidade. Quanto ao Comércio, assinado por todos os bem pensantes do Continente, era perseguido pelos fascistas, gente ruim, mas pouco sincronizada com a modernidade; fosse Alberto João Bokassa o chefe das ilhas, e certamente que VJS teria as pernas partidas e a publicação morreria por falta de publicidade (já aconteceu, uma coisa e outra). Mas VJS veio para Cuba trabalhar no Expresso, e o Comércio morreu de morte natural — mas não deixou de morrer, indirectamente, no regime democrático. Digamos que foi ultrapassado pelas próprias ideias que defendia.


Este pedacinho de História não tem nada a ver com os tempos que correm. Era uma época em que os jornais viviam – e morriam – pelas suas ideias. Estamos noutros tempos – se melhores ou piores, não tenho dúvida: melhores. Não vamos romantizar o passado. Há pessoas que têm tanto medo do futuro que até o passado mais serôdio é recordado com saudade. Mas então, que se passa no presente?


As pessoas não lêem, ou lêem os jornais desportivos, também se poderia dizer; mas as pessoas também não liam no tempo do Botas e com certeza que se vendiam menos jornais. Enfim, as razões serão estas e outras, todas juntas talvez, mas o facto é que, com o desaparecimento do Público, tal como o conhecemos, deixa de haver diários de referência neste país. Será que só os tablóides conseguem sobreviver? (Os tablóides têm tanto direito à vida como os outros, diga-se, mas eles sim, são concorrentes da televisão. O espaço dos bons diários generalistas continua a existir, assim como a música electrónica não acabou com os violinos.)


Alguém percebe isto? Gostaria muito de explicações para a minha perplexidade.

publicado por Perplexo às 18:23
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