Sábado, 16 de Setembro de 2006

Ai, ai, ofenderam o profeta...

Não se pode dizer nada, que os muçulmanos não deixam. Chegamos a um ponto completamente ridículo da situação, em que uma cultura inteira parece refém de uma crença religiosa que nem sequer é a sua – tem de andar em bicos dos pés para não ofender o vizinho belicoso e fundamentalista.


Vendo numa perspectiva histórica, o ridículo da situação ainda se torna mais evidente. Nos muitos séculos de preponderância do cristianismo no Ocidente (a definição de “Ocidente” inclui o próprio cristianismo), não havia dúvidas nenhumas de que a Bíblia era o Livro, e ai de quem duvidasse. Milhares de pessoas foram torturadas, comunidades inteiras massacradas e grandes cidades destruídas por ter opinião divergente. Os ocidentais cristãos deram-se mesmo ao trabalho de viajar milhares de quilómetros em condições precárias só para ir chatear os habitantes de outros continentes com a imposição da sua crença (para não falar da exploração económica, que é outro assunto, concomitante, mas que não vem para o caso). Era a guerra santa, universal e civil, na qual a palavra do Papa era definitiva, inspirada por Deus, e capaz de matar sumária ou lentamente quem ousasse pensar o contrário.


Não vamos narrar a história toda, que toda a gente sabe; é só relembrar como, até á Revolução Francesa (até ao século XIX, em termos mais práticos) o cristianismo era uma filosofia afirmativa, agressiva e fundamentalista, que justificou a expansão europeia, a exploração dos cinco continentes e a escravização de milhões.


Fast forward para hoje, 2006. Um Papa conservador, intelectual e afirmativo faz um discurso em que recorre à História para dizer o que os papas sempre disseram e, de certo modo, têm obrigação de dizer: que o cristianismo é que é bom e as outras religiões, concretamente, o maometanismo, não é grande espingarda – no caso, até é uma espingarda pronta a disparar. Os cristãos, a quem a mensagem se dirige, reagem como os cristãos são obrigados por profissão de fé a reagir: ouvem, aceitam e não levantam ondas. Os muçulmanos, que não deviam ter nada com isso, reagem como virgens ofendidas. Manifestações de rua, apedrejamento de embaixadas, líderes religiosos muçulmanos a exigirem desculpas. Os mesmos líderes religiosos muçulmanos que pregam a jihad, a aniquilação dos cristãos, a conversão compulsiva, a violência generalizada, a guerra sem quartel — esses mesmos, não podem tolerar que o Papa dos cristãos os chame de violentos. Estão a fazer o seu papel, pode dizer-se.


Mas então o Papa, que antigamente os mandaria queimar na fogueira com um gesto displicente, apressa-se a pedir desculpa, a dizer que foi um mal entendido. O Papa a pedir desculpa!


Não sou católico, nem sequer simpatizante, mas assisto a este espectáculo com perplexidade e receio. A liberdade de não ser católico, de não ter qualquer religião, foi duramente conquistada por gerações de europeus, à custa de sangue, suor e lágrimas. A humilhação pública do representante duma religião que detesto, representa um perigo evidente para a minha liberdade de detestá-lo.


O “Ocidente” está literalmente de joelhos. Uma situação assustadora, temos de reconhecer.

publicado por Perplexo às 15:36
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