Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006

Personalidades fracturantes, debates frustrantes e perspectivas horripilantes

É interessante como o Dr. Mário Soares se tornou, juntamente com a interrupção voluntária da gravidez e as salas de chuto para os toxicodependentes, uma das chamadas “questões fracturantes” da sociedade portuguesa. Ou seja, ou se é radicalmente contra ou a favor, por um rol de razões tão lógicas como ilógicas, e não há meios termos, nem nuances de cinza, nem conversa possível. No fundo são questões que as pessoas resolveram emocionalmente, e apenas debitam razões intelectuais (ou filosóficas, ou ideológicas) para provar a si próprias e aos outros que são racionais.


Isto a propósito da reaparição de Mário Soares, num frente a frente tenso e polémico com Pacheco Pereira. Uma amiga minha (não, não é a mesma da entrada “9/11”) ferozmente anti-soarista, acha que ele só disse disparates. Nem reparou no bronzeado uniforme, à lá Warren Beatty, no fato de corte impecável, no ton-sur-ton da camisa e gravata, no gesticular senatorial. Para ela Soares, diga o que disser, é um aldrabão. Não falei com nenhuma amiga que deteste o Pacheco Pereira porque o Pacheco Pereira, por mais amado ou odiado que possa ser, não tem esse estatuto gutural, fracturante, independente das opiniões que exprime (nem provavelmente virá a ter). Mas não falei por acaso, pois tenho vários amigos que decerto não terão deixado de ranger os dentes a lembrar o passado maoista deste defensor incondicional dos Estados Unidos — mesmo dos Estados Unidos neoconservadores, de Cheney e Rumsfeld, da teoria do creacionismo e da anti-ecologia.


Considero-me uma daquelas mentes previlegiadas que consegue ver o Dr. Soares com imparcialidade — o homem tem qualidades e defeitos, como toda a gente, e o estadista tem lugar garantido na História, ache-se o que se achar. No Dr. Pacheco Pereira aprecio a inteligência e o raciocínio inexorável, tanto como me irrita a maldade e a mesquinhez.


Mas não era sobre eles que queria falar, e sim das ideias que defenderam — algumas indefensáveis, outras conjecturais, outras ainda trágicas.


Das posições de Pacheco Pereira, é indefensável a defesa da equipa Bush & Cia. É verdade, como ele muito bem apontou, o papel horrível da Europa, que está sempre pronta a acusar os norte-americanos mas vive à custa da protecção deles para obter o petróleo e, em última análise, para se manter rica e independente. Mas a estupidez do ataque ao Iraque… — ou será que o Pai Bush não disse ao filho porque não entrou em Bagdade, na I Guerra do Golfo? O inimigo realmente perigoso é o Irão, já o era nos tempos de Carter (a ocupação da embaixada, lembram-se?) e justificava a manutenção de Sadam como contra-poder (Era um déspota horrível? Quantos déspotas muito horríveis e horríveis assim-assim andam por aí, sem ninguém se queixar?) E o conceito, ainda agora repetido por Cheney a propósito do Irão, de que atacando um ditador o povo se vira contra ele, a favor da “democracia”? Estas e mais outras estupidezes que revelam ignorância das lições passadas (pelo menos leiam a História, senhores!) e ingenuidade em relação ao futuro (com que então, não temos de nos preocupar com a ecologia porque o Juízo Final está a chegar?), mais o descalabro a que nos levam, tornam a defesa das posições norte-americanas insustentável, por mais que no imediato nos salvem a pele.


Do lado MS, a ideia peregrina que se deve negociar com Bin Laden, porque “tudo é negociável”. Ora bem, tudo é negociável se houver algo para negociar. O que temos para oferecer ao Sr. Bin Laden? Evacuar Israel, deixar de consumir petróleo e convertermo-nos todos ao islamismo? E o que tem ele para nos oferecer? Parar de nos serrazinar com mega-atentados de grande efeito mediático, e deixar de querer matar todos os infiéis? Além disso, actualmente Bin Laden é mais um símbolo do que um líder executivo. A jihad tem a sua própria aceleração e já não precisa dele para prosseguir. Os milhares de jovens muçulmanos que vão clandestinamente para o Iraque para se imolar, e as centenas que na Europa se organizam quase espontaneamente não recebem ordens dele. Quando ao Irão, tem uma agenda evidente: quer ser o maior poder regional e um grande poder mundial. Quer a grandeza da Pérsia da Antiguidade; só negociará quando estiver ao nível de o fazer de igual para igual. Até lá, é o new kid on the block, cheio de prosápia – também não há nada que se possa negociar.


A verdade é que a Europa está entalada, e todos os cenários prováveis apontam para a sua extinção a médio prazo, tal como existe agora. Apesar das mesquinharias deste país, a verdade é que na Europa vivemos num período extraordinário de igualdade, liberdade e abundância. Período que se pode considerar começado em 1945 (para nós e para a Espanha em 1975, para os ex-países de Leste em 1990, etc.) e que tem o seu fim à vista. Chegará talvez, no máximo, aos cem anos. Muito pouco, historicamente. Mas tivemos a sorte de vivê-lo. Toca a aproveitar, que isto é sol de pouca dura. É o que Soares, Pacheco e companhia estão a fazer, à maneira deles. Não lhes vamos querer mal por isso.

publicado por Perplexo às 00:09
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