Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

Estalinismo em Setúbal

Fala-se muito de Fidel Castro como uma espécie de dinossauro do Estalinismo (ou outro é o Pequeno Querido Líder, já que o PC chinês se tornou revisionista-capitalista). Mas não é só em Cuba que se mantêm os métodos radicais do “centralismo democrático"; aqui mesmo à nossa porta, em Setúbal, um Partido Comunista que nem sequer está no poder usa o pouco poder que ainda tem com a mesma descricionalidade “revolucionária”. Estamos a falar, evidentemente, da demissão sumária de Carlos de Sousa, o autarca de Setúbal despedido pelo “seu” partido, "para rejuvenescer a gestão".

Há dois aspectos interessantes neste caso. Um é a atitude do PCP. Não só por mandar demitir o seu único autarca mediaticamente competente, arriscando-se a perder a Câmara mais importante que ainda tem, pondo a fidelidade partidária acima de considerações estratégicas. Mas também por fazê-lo sem se sentir na obrigação de dar explicações, na sua tradição de secretismo e desprezo pela opinião pública. Pior ainda, dando explicações que são um insulto à população —“rejuvenescer” a gestão de Setúbal, repentinamente e a meio de um mandato, é uma justificação inédita, implausível e sem sentido.


Carlos de Sousa, que vem de anos à frente de Pombal, é um dos poucos autarcas portugueses considerado no país inteiro como sendo competente e honesto, e portanto um capital que nenhum partido em seu são juízo deitaria fora. Aquilo de que está a ser acusado, de ter feito acordos com 60 funcionários camarários para se aposentarem prematuramente – pode ser ilegal no estrito sentido da lei, mas é aceitável na medida em que todos saem a ganhar, os funcionários porque conseguem uma reforma antecipada, a Câmara porque poupa reduz as despesas. Comparado com as suspeitas (e certezas) que recaem sobre tantos outros autarcas, não é nada. O PCP não o mandou embora por isso, mas por razões que só o Comité Central sabe — e que tudo indica se devem a Sousa ser considerado demasiado reformista. Só não o mandam para o gulag porque, azar o deles, não têm poder, sem sequer gulag.


O outro aspecto interessante é a atitude de Carlos de Sousa. Num país habituado a ver os seus autarcas agarrados ao tacho como lapas à rocha, capazes até de se recandidatar contra a vontade declarada dos seus partidos (demitir-se, então...) é salutar ver um edil aceitar que o seu partido o despeça de um cargo para o qual, a bem ver, não foi o partido que o escolheu. (Como dizem os tais autarcas inamovíveis, foram eleitos pelo povo e portanto não têm de obedecer aos partidos).


E não se pode alegar que Sousa o faça por ter medo de represálias. Além da impossibilidade do gulag, há muito pouco que o PCP possa fazer actualmente para destruir uma pessoa. Já lá vão os tempos em que os caídos em desgraça não arranjavam sequer trabalho para sobreviver. Carlos de Sousa aceitou ser enxovalhado publicamente porque é fiel às suas ideias e ao partido que as representa, por mais imbecil que seja. Essa idoneidade moral, apesar de mal enquadrada, é rara e digna de nota.


Pois é, o Jerónimo pode ser simpático, mas não passa de um estalinista-cunhalista da velha guarda…

publicado por Perplexo às 01:39
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