Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

O centenário de quem?

A silly season é um problema para a comunicação social escrita. A televisão ainda tem os incêndios, com boas cores e vistas amplas, para abrilhantar o ecrã, e mais os comentários das mulheres de bata chorosas para dar um toque humano. Mas os jornais ficam mesmo sem assunto – quantas vezes se pode escrever sobre as férias dos políticos?


Graças a este vácuo noticioso nacional emergem das sombras pautas que não lembrariam ao diabo. É o caso da importante efeméride do centenário do nascimento do professor doutor marcelo caetano, a figura final do salazarismo. As gerações mais novas nem devem saber quem ele é, talvez não pelas melhores razões (que seriam a sua pouca importância). As gerações mais velhas ainda gostam de discutir se ele foi “bom” ou “mau”, isto porque o sexo dos anjos já está discutido ad nauseum e as gerações mais velhas precisam de ter alguma coisa que lhes puxe a adrenalina.


Mas eis que, das brumas do Verão, lá surge o indómito Vasco Pulido Valente, nas páginas do impoluto Público, a declamar sobre o falecido, com o sabor especial de refazer um diálogo entre ele e outra figura impoluta da nossa História, o famigerado senhor general spínola. Confesso que não li o Público nem a prosa do Sr. Valente, conhecido reacionário da nossa praça (com a agravante de que mistura história com opinião sem qualquer pudor ou má consciência, e a atenuante de que de facto escreve muito bem). Não li o artigo mas folheei incontáveis blogs que falam do assunto, com aquela displicência e à vontade que caracteriza os blogs e nos faz lembrar que que realmente, sim senhor, vivemos em democracia, o regime em que todos têm a mesma oportunidade de mostrar os cabotinos que são.


O centenário do nascimento do tal senhor é completamente irrelevante. A única efeméride da sua vida que tem relevância é a destituição do cargo de presidente do conselho, para o qual fora escolhido pela troupe dos “ultras” do regime, chefiadas por américo de deus “cabeça de abóbora” rodrigues thomaz, outra figura perdida nos confins do tempo.


A conversa que terá havido entre o senhor professor doutor e o senhor general também não tem a mínima relevância, uma vez que foram dois ditadorzecos varridos pelos ventos das História (infelizmente os ventos nem sempre varrem quem deviam, mas desta vez acertaram em cheio).


Os comentários nos blogues, a maioria (senão totalidade) escritos por pessoas que metiam o dedo no nariz quando houve a tal conversa, seriam cómicos se não fossem trágicos. (um deles,dizia que a versão do marcelo era verdadeira porque tinha sido validada pela filha, ana maria caetano…)


Mas gostei de ler aquilo tudo. No Verão não há nada melhor do que leituras light de coisas vãs para manter a frescura e não sobrecarregar o intelecto. Já tremo só de pensar em Setembro e os próximos acontecimentos, novos desenvolvimentos, inadiáveis decisões e incontáveis opiniões que vão acabar com este dolce far niente em que se conseguem ouvir os grilos… e os mortos.

publicado por Perplexo às 23:14
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