Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

A questão Berardo

Então o Presidente da República lá assinou o acordo do Estado com o Sr. Berardo para que tenhamos a colecção permanentemente à disposição do público; mas não sem antes, numa caturrice dispensável, dizer que não concorda. O Presidente, cujos conhecimentos sobre arte mal podemos imaginar, acha que o Sr. Berardo sai a ganhar porque poderá escolher perpetuamente o director da Fundação para a Arte Moderna e Contemporânea. O Sr. Presidente, que nunca disse algo que se ouvisse sobre o estado da arte em Portugal, está precupado que o Sr. Berardo queira ter algo a dizer sobre uma colecção de que lhe custou milhões de euros e que poderia muito bem não mostrar a ninguém.


A questão dos termos do negócio entre o Estado e o Sr. Berardo já fez correr muita tinta. Como é normal nesta terra, toda a gente tem alguma coisa a dizer e a criticar. Não lemos o acordo propriamente dito, mas temos ouvido de terceiros as mais diversas versões. Parece que o Estado vai pagar a conservação da colecção (e a exposição ao público, evidentemente), mas que o proprietário será sempre o Sr. Berardo.


Se em vez de uma colecção de arte se tratasse de algo mais próximo daquilo que a malta consegue visualizar — digamos, um carro topo de gama — já se perceberia melhor o negócio. Ou seja, suponhamos que o Sr. Berardo empresta o seu Porsche ao amigo Zé Povinho. As condições são simples: o Zé pode andar os quilómetros que quiser, mas tem de pagar a manutenção, gasolina, seguro e estacionamento. Ao fim duns anos, o Zé deverá devolver o Porsche em bom estado ao seu proprietário, Sr. Berardo. Que diriram as pessoas? Bem, que o Zé Povinho vai andar de Porsche durante uns anos sem ter de o comprar, uma pechincha; e que o Sr. Berardo é um nabo em emprestar tão belo carro ao Sr. Povinho sem sequer lhe cobrar um aluguer.


Um editorial do Correio da Manhã (sim, leio-o quando o encontro no dentista) dizia outro dia que a colecção Berardo é a coisa mais horrivel que se fez desde a Pré-História. O Sr. Presidente da República não teve coragem de expôr a mesma opinião, mas está subjacente ao seu comentário.


Realmente, se há uma questão Berardo, essa questão é: porque é que o comendador insiste em mostrar a colecção num país onde a arte ainda é vista como uma espécie de inutilidade incómoda, despesa desnecessária e inutilidade extravagante?

publicado por Perplexo às 22:22
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