Quarta-feira, 17 de Maio de 2006

O estado de Paulo, ou a arte de Portas

Em geral, é extraordinária esta “tendência” da televisão de usar políticos como comentadores (ou serão os políticos que usam a televisão?); mas, em particular, é ainda mais extraordinária a presença de Paulo Portas no dito “Estado da Arte”, uma tribuna gratuita (será paga? Não pode ser paga!) que qualquer político no meio do deserto desejaria mais do que um cantil de água. Não há como negar os talentos de Portas; fez um jornalismo agressivo,contemporâneo (embora bisbilhoteiro, despudorado e, o que é pior, amiúde mentiroso e difamatório) e conseguiu transformar-se em político, coisa de que muito poucos jornalistas se podem gabar; tomou conta de um partido numa penada só e conseguiu que esse partido, com uma votação quase marginal, chegasse ao Governo. É aberta e despudoradamente reaccionário (“conservador”, segundo ele), mas também é diligente, competente e estuda a fundo os dossiers, coisa de que muito poucos políticos se podem gabar. Camaleonicamente, vai mudando de roupa e de postura conforme os personagens que assume, mas mantém sempre a mesma determinação, sorriso provocador e falta de pudor. E tem-se saido sempre bem, cumprindo as suas funções minesteriais com um brilho que até os homofóbicos das Forças Armadas tiveram de reconhecer. Agora, na versão de playboy bronzeado e confortável na vida está, como sempre, bien dans sa peau. Neste caso específico do “Estado da Arte”, conseguiu manter-se na ribalta numa época em que corria o risco de desaparecer, sem ter as chatices de dirigir um jornal, ou de ter que ter tento na língua. É uma plataforma para o que queira fazer no futuro, seja voltar à presidência do PP, seja concorrer a qualquer lugar público em carência de talentos. (A Presidência da República ainda não está à vista, mas já falou nisso: “Sou muito mais novo do que Cavaco, quem sabe…”) O que é especificamente extraordinário nele, é a atitude com que diz as coisas mais reacionárias e mais absurdas como se fossem verdades factuais indiscutíveis. Clara de Sousa, diga-se em abono da verdade, ainda lhe dá alguma luta, mas a posição não lhe permite mais; afinal não se trata de um debate entre os dois, mas apenas de proporcionar a PP um comparsa para lhe dar as deixas. (Maria José Nogueira Pinto, a outra luminária da neo-direita, é mais sóbria e igualmente eficiente, mas não tem o despudor, a ousadia do menino Portas.) Acho que ele pode dizer o que lhe apetecer, e tem esse direito; mas, francamente, deixa-me perplexo que um canal de televisão lhe dê tamanha oportunidade, a troco de umas opiniões cabotinas e até descabidas sobre, cinema, futebol e todas as artes e ciências do planeta que ele domina tão bem.
publicado por Perplexo às 00:54
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