Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2006

Amadeus

Sobre a música de Mozart, por mais que goste de ouvir, não me atrevo a falar. Não tenho conhecimentos - nem sequer para exprimir o que sinto por ela. Certamente que não diria nada de novo. Agora, sobre a vida e a fama de Wolfgang, de que conheço até menos do que a música, já me sinto um pouco mais à vontade. Os génios são muito impressionantes e algo aterradores para os mortais comuns. Mas então, da vida dele, nunca tive a curiosidade de ler uma daquelas biografias maciças, como as que li de Eça de Queiroz, Gore Vidal ou Van Gogh. Li o que a cultura geral fornece, e vi o filme. Ah, o filme! Uma fita lamentável. A realização de Milos Forman é apenas competente, sem grande brilho, mas o que destrói qualquer verosimilhança com a realidade, e mesmo com a fantasia, é o texto de Shaffer. Mozart parece um atrasado mental, os diálogos são perfeito Midwest (a mulher trata-o por Wolfie!), e a narrativa é superficial, estereotipada. Até a música, lembra mais um filme de cowboys, tão hollywoodisticamente colocada para enfatizar a acção. Mas tem um lado interessante: a narração é de Salieri, o alegado arqui-inimigo de Mozart, que relata os sucessos da sua obsessão com um misto de ódio mal contido e admiração infinita. Salieri, era um bom compositor - aliás, redescoberto recentemente - mas não podia competir com Mozart, e o pior era que tinha a perfeita noção disso. Aliás (segundo o filme) praticamente só ele, em toda a Viena, conseguia perceber verdadeiramente a genialidade de Mozart. Salieri achava que o talento era um dom de Deus, passava o tempo a rezar para receber esse milagre; pois claro, indignava-se com o Senhor por ter dado tanto a uma criatura tão pagã. Acompanhava a vida de Mozart como uma sombra, e amofinava-se a cada demonstração do seu dom. Enfim, nem toda a gente tem a oportunidade de conviver com um ser excepcional. No mundo real das nossas vidinhas, encontramos pessoas mais talentosas e outras menos dotadas, mas, provavelmente, nenhum génio que fique para a História. Passamos por personalidades que fazem sucesso demais para os seus talentos, e outras que não sabem fazer valer os que têm. É o suficiente para podermos filosofar com os amigos, e para bramar aos céus em momentos de crise existencial. Claro que, de uma maneira cínica e inconfessável, todos gostamos de ver um génio falhar na vida, porque nos faz acreditar, lá no fundo, que também somos uns génios irreconhecidos e que a obscuridade em vida é, por assim dizer, uma prova de genialidade incompreendida. Nada mais falso. Há talentos bem sucedidos, sempre houve, por mais talentos falhados ou imbecis bem sucedidos que também haja. São coisas independentes, digamos assim. E o talento não tem nada a ver com a disposição natural da pessoa. David Byrne, por exemplo, usa o seu desconforto e timidez como forma de expressão. Cindy Sherman transforma o seu ego excessivo em Arte. Transformam os defeitos em qualidades, poder-se-ia dizer. Mas numa personalidade como Mozart, o que realmente é invejável é a capacidade de sentir a música com uma intensidade absoluta, independentemente do partido que se possa tirar do talento. Se isso é uma benesse ou uma maldição, o génio que o diga.
publicado por Perplexo às 21:18
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