Sábado, 13 de Dezembro de 2008

o futuro do jornalismo?

Quando trabalhei na Edimpresa (que na altura se chamava Abril/Controljornal) houve uma época em que o Director-Geral era Miguel Ribeiro e Silva, um gestor muito inteligente e excêntrico — um “elefante”, no vocabulário zen-empresarial do livro de Stanley Bing. Fez um trabalho extraordinário; em poucos anos, a editora, que estava falida e à deriva, enterrada numa cave onde se ouviam os esgotos que nos passavam por cima da cabeça (entre outras situações, mais graves para o trabalho) passou a ser uma empresa organizada, computorizada, bem instalada e a produzir uma série de revistas com consistência. Logo a seguir entrou num período de expansão com novos títulos, alguns muito bem sucedidos — e outros menos, mas isso quer dizer que se apostava em projectos; havia uma postura dinâmica, entusiasmante.


Mas não é a estória da Edimpresa que quero contar. O que vem para o caso é que o Miguel Ribeiro e Silva detestava jornalistas, que achava pouco confiáveis (como funcionários), desequilibrados e excessivamente bem pagos para o que faziam.


O sonho dele era fazer revistas sem jornalistas.


Tentou várias vezes, de várias maneiras (que não vou contar, embora desse para um livro). Na altura achava-o um guru empresarial, mas agora vejo que foi um precursor no mundo rarefeito e frenético da comunicação social.


Que já se fazem revistas, jornais, e sobretudo televisão informativa, sem jornalistas, toda a gente sabe. Basta ler e ver.


Mas esse é o presente, pelo menos em Portugal.


Estou a falar do futuro — duma época inimaginável até há pouco, em que o jornalismo será outsourced a nível global. Se o Ribeiro e Silva ainda estivesse no ramo (não faço ideia por onde anda) ficaria encantado.


Quem conta esta estória é Mareen Dowd a colunista do New York Times. Segundo ela (e não há nenhuma razão neste mundo para duvidar de Maureen Dowd) existe uma publicação on-line em Passadena que é completamente feita por jornalistas indianos — pessoas que nunca puseram os pés nos Estados Unidos, e muito menos em Passadena, que é o tema da publicação.


James Macpherson, o director do diário, acha (e tem razão para achar) que “a imprensa norte-americana está numa situação semelhante à dos fabricantes de automóveis, só que não há ninguém para a bail out.”


Vai daí colocou um anúncio no Craiglist a pedir repórteres indianos. Obteve muitas respostas. Despediu os sete jornalistas que trabalhavam no jornal (e que ganhavam entre 600 e 800 dólares por semana) e substituiu-os por seis indianos que recebem 7,50 dólares por cada mil palavras. (Este texto tem 600 palavras).


Como é que os indianos se desenrascam? Dowd telefonou-lhes. Um deles, uma senhora chamada G Sreejayanthi, disse que não se considerava uma jornalista porque tinha um emprego diurno e fazia aquilo nas horas vagas. Acrescentou, com toda a candura, que as coisas nem sempre saiam como deve de ser; uma vez teve de falar do Rose Bowl (“Taça de Rosas”) e pensou que fosse uma actividade sobre comida; só mais tarde é que percebeu que se tratava de um evento desportivo. (Trata-se do campeonato nacional de rugby entre universidades, caso alguém se queira candidatar a jornalista nos Estados Unidos.)


Macpherson está finalmente a fazer dinheiro com o seu jornal e, ao que parece, os leitores não se queixam. Aliás o dono de uma cadeia de jornais locais disse a Dowd que achava os resultados muito aceitáveis e estava a pensar em experimentar nas suas publicações.


Pensando bem, talvez não tenha sido uma boa ideia levantar esta lebre. Com certeza que haverá em Goa indianos que escrevam em português. Apesar dos jornalistas portugueses ganharem os tais 600 a 800 dólares por mês, mesmo assim a economia seria notável. E depois, passando os olhos pelos nossos jornais, tenho a certeza que na maioria dos casos ninguém daria pela diferença.


publicado por Perplexo às 21:43
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