Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2006

Bigodes neles!

É uma pouca vergonha. Um atentado à democracia. Imagine-se que um grupo de engraçados, em vez de trabalhar, ou de ficar na fila do desemprego, ou de comparecer aos comícios dos candidatos, ou de fazer o que quer que seja que devem fazer os bons cidadãos, anda a conspurcar os empertigados cartazes dos candidatos a Presidente com uns gigantescos bigodes pretos. (Não são os bigodes do Zé Povinho, mas antes os bigodes esquecidos do Pacheco. Contudo, duvido que os jovens prevaricadores saibam quem foi Pacheco.) A Comissão Nacional de Eleições está atenta, e está certa. A Comissão não pode de maneira nenhuma levar esta reinação na brincadeira. Mas nós, que não temos obrigações constitucionais (além de pagar impostos, votar, etc.) podemos levar a coisa como deve ser levada, como um saudável exercício das franjas da democracia – cujo maior valor, quer gostem ou não, é permitir a sua própria contestação. Mas então, o que pensa o eleitor típico, que coloca tantas esperanças no voto? Segundo uma peça da SIC-Notícias, os eleitores dividem-se. Dizia uma senhora de meia idade, com ar reprovador: “Andam a brincar, não é?” Porque a brincadeira, oposto da seriedade, não é coisa boa. Um grupo de adolescentes, mais desempoeiradas, acha bem, e até se divertiram a comentar quais os bigodes mais apropriados para cada candidato – loiro para Louçã, grisalho para Soares, e por aí fora. Não posso – nem pode ninguém que bota tribuna em público, com pretensões intelectuais – aprovar semelhante desacato à boa ordem do sistema. Mas posso – como qualquer pessoa com algum bom senso – achar piada e perceber que não há crise. Isto só pode ser obra de anarquistas ou fascistas, mas parece-nos que será dos anarquistas. Os fascistas não têm sentido de humor e uma agressão deles seria muito mais desagradável. Os anarcas, que se excederam em grafites bem dispostos no pós-25 de Abril, tinham desaparecido da cena. É bom que tenham voltado. Apesar de tudo isto ser muito sério (eleições, situação económica, etc.), na medida em que afecta a vida de todos os portugueses, não há nada mais desopilante do que ver o ridículo de certas pessoas pretenderem ser os salvadores de uma situação que, com toda a franqueza, não pode ser salva. Poder ser corrigida e melhorada, mas não pode ser modificada completamente. Está aí a História a prová-lo. Rir ainda é o melhor remédio, como disse alguém que certamente nunca se candidatou a nada.
publicado por Perplexo às 00:05
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