Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2006

As contradições do Império

A política internacional também me deixa perplexo. Nunca percebi, por exemplo, como é que os actuais dirigentes dos Estados Unidos (“esta Administração”, como eles dizem) não previram o que iria acontecer no Iraque. Não estou a falar da pertinência, legalidade ou moralidade de invadir o país e derrubar Sadam. Nem da conveniência, ou necessidade absoluta, de se assegurarem de uma grande fonte de petróleo e mudar o equilíbrio de forças na Península Arábica. Nem de outros interesses, expressos ou ocultos, ideológicos ou pragmáticos, que os empurrassem para a operação. Estou a falar de uma situação que mesmo nós aqui, observadores completamente ignorantes, metidos numa cultura bastante antiquada e pouco evolutiva, podíamos avaliar com bastante precisão. Ou seja, que não se pode criar instantaneamente uma democracia ocidental num país em estágio pós-tribal, nem a partir de dentro, nem vindo de fora; que não é possível obter a aquiescência de nenhum país, avançado ou recuado, para lá ir derrubar o regime que o governa; e que não é possível ocupá-lo com uma força completamente alienígena sem um grande custo humano e material. Admiradores como somos da praticabilidade, eficiência e modernidade da cultura norte-americana –é o país que foi à Lua, inventou os computadores, pôs de pé a Internet, e que tem mais universidades que qualquer outro continente, e estudos académicos sobre coisas tão variadas como nanogenética e astropsicologia. Como é que uma sociedade crente que tudo se pode aprender, e que com meios suficientes tudo se consegue, faz uma avaliação tão errada das suas possibilidades? Ainda há pouco tempo li no “New Yorker” a história da ocupação inglesa da região, nas décadas de 1920-30, história que não pode ter passado despercebida aos analistas de Wolfenson e Rumsfeld. Pois os ingleses, numa época em que os direitos humanos não eram uma questão, e em que ainda tinham a mão imperial bem pesada, receberam o “mandato internacional” (o eufemismo de então para os interesses ocidentais) de ocupar a região. Fuzilaram, prenderam à vontade, deslocaram aldeias inteiras, enfim, agiram a seu-bel prazer. Sunitas, shiitas, curdos e demais facções rivais (na época ainda lutavavam entre si para dominar o que viriam a ser os países da região) uniram-se tácita e expressamente para dar uma dor de cabeça monumental aos ocupantes, conseguiram matar um general britânico, muitos oficiais e numerosos soldados, dinamitaram vias férreas, atacaram por todo o lado – enfim, transformaram a vida dos ocupantes num inferno, ao ponto de os ingleses, coisa rara, se darem por vencidos e retirar. Assim que se viram sós, os iraquianos começaram imediatamente a lutar entre eles, com o rol de atrocidades habitual na região. E não é difícil de perceber e de compreender a atitude deles. Imagine-se que na época de mais baixa popularidade do Estado Novo, a partir do final da década de 1950, uma força estrangeira vinha a Portugal depor Salazar; certamente que a população se uniria contra essa força antes, durante e depois do derrube, como aliás aconteceu no nosso país no século XIX, quando tivemos que nos rebelar contra os ingleses que nos tinham vindo libertar dos franceses (que por sua vez nos tinham vindo libertar da monarquia absoluta). Como é que se irá resolver este imbróglio? Como Deus quiser (seja o Deus que fala com Bush, ou o Alá que leva os jihadistas para o Paraíso). Mas há coisas que são evidentes, e que também foram previstas por muita gente: o terrorismo recebeu um empurrão providencial e tornou-se a “cause celebre” de toda uma geração de jovens muçulmanos; a região entrou numa instabilidade muito maior, a piorar quando cair a monarquia saudita; o regime ultra-conservador do Irão (esse sim, uma ameaça internacional) saiu reforçado, e os Estados Unidos perderam completamente a capacidade de o desestabilizar. A médio prazo, a situação estratégica da Europa piorou, e começou o declínio do Império Americano. Ainda bem que não estaremos cá quando estas tendências se realizarem, porque não vai ser nada agradável para nós, europeus, seja qual for a nossa opinião.
publicado por Perplexo às 18:00
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