Domingo, 8 de Janeiro de 2006

Viva a III República

Não há nada como tomar chá com um grupo conservador para nos vermos obrigados a defender os méritos da III República. Não interessa quem são as pessoas, anónimos representantes de uma classe média permanentemente aterrada com o futuro, descontente com o presente, e pronta a mitificar o passado. Numa tarde fria, à volta de uma confortável mesa com chá e bolos, a conversa poderia ser sobre pintura, metafísica ou os melhores lugares para passar férias. Mas não senhor, a conversa foi toda a carpir as poucas-vergonhas da actual situação, a prever cenários de descalabro total, e a lembrar os bons tempos em que não havia dúvidas nem tibiezas. Há coisas que esta gente diz — de muitas maneiras, dependendo do escândalo do momento — que nunca mudam. A III República é corrupta, despudorada, ineficiente, atabalhoada. O Estado Novo foi honesto (mesmo que um pouco antiquado), moralizador (mesmo que um pouco moralista), eficiente (mesmo que as opções nem sempre fossem certas) e organizado (apesar da burocracia). E não há maneira de lhes dar a volta. Primeiro, é preciso não ser muito radical, nem usar um vocabulário “esquerdista”, senão limitam-se a recuar horrorizados e a martelar ainda mais os chavões, como se fossem um mantra. É preciso ser lógico, factual, mas sobretudo negociar a questão da maneira que eles a vêem — dantes é que era bom, agora o mundo está perdido. Não, dantes não era bom. Nunca foi. E o mundo não está mais perdido do que sempre esteve. Não há mais homossexuais, apenas agora podem-se mostrar. Não há mais corrupção, simplesmente agora sabemos dela imediatamente, no noticiário da noite. Não há mais incompetência, apenas nos tornamos mais competentes a detectá-la. E a comunicação social não é mais facciosa, passou foi a emitir opiniões. “No antigamente”, dizia-me um senhor, “os jornais falavam das coisas preto no branco, não se publicavam mentiras.” Este comentário foi aterrador. Respondi: “Mas havia muitas coisas que não se podiam publicar, verdades ou mentiras.” E a resposta a isto? A resposta foi “Só não se podia falar de política; do resto, falava-se muito mais abertamente.” Uma solução seria atirar o chá à cara das pessoas, queimando-as bastante. Outra, seria meter a cabeça no chá, num suicídio consciente. Outra ainda seria insistir, com uma persistência maoista, em provar que nunca tivemos um regime tão estável, democrático e livre+. Até senti vontade de mudar o nome do blog para “Sem Saudades” e passar a falar diariamente do que era a vida no Estado Novo, mesmo para os burgueses que o aceitavam e não queriam chatices. É bom que os mais novos saibam o que foi aturar aquilo: as tacanhezas, a Contra-Reforma, o moralismo, a mesquinharia, a reacção a qualquer tipo de progresso e, finalmente, o supremo sacrifício de lutar numa guerra a sério por ideias que, como dizia o sinistro Américo Thomaz, “sabe Deus quais são”. É preciso deixar bem escrito na História que o Estado Novo não era fascista, pois o fascismo é uma ideia do século XX: era pré-Revolução Francesa, e mesmo pré-renascentista. Posso dizer, como tanta gente adulta antes do 25 de Abril, que vivi na Idade Média. É sempre melhor viver no século XXI, mesmo que as coisas não andem lá muito boas.
publicado por Perplexo às 18:17
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