Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Toca a saír do Afeganistão!

Obama já disse que a sua prioridade é o Afeganistão e não o Iraque. É a leitura “geo-politicamente correcta” que os europeus (e grande parte da intelitgenzia norte-americana, é justo que se diga) fazem há muito tempo e que os levou a participar na invasão do primeiro e torcer o nariz à do segundo. A ocupação do Afeganistão justificava-se estrategicamente porque albergava e treinava os radicais islâmicos, e moralmente porque os tipos eram uns bárbaros que dinamitavam monumentos ancestrais e apedrejavam as mulheres até à morte.


Já a invasão do Iraque sempre pareceu, mesmo ao homem de rua europeu, uma birra infantil. (Até hoje nunca se percebeu muito bem as verdadeiras razões da obsessão norte-americana. Havia as elocubrações geo-estratégicas de Wolfenson e Rumsfeld, é verdade, mas não chega. Talvez fossem os problemas edipianos de Bush filho em relação a Bush pai, ou a necessidade de Cheney arranjar negócios para os seus patrocinadores e amigalhaços.)


Mas, se o envolvimento no Iraque tem um fim à vista (a saída das tropas norte-americanas algures em 2010) e as consequências que sempre se previram (multiplicação exponencial dos sentimentos anti-ocidentais no mundo árabe e aumento da área de influência do Irão) a “questão” do Afeganistão parece interminável. E não é preciso fazer futurismo para chegar a cenários que mostram, invariavelmente, uma rejeição completa da população pelos “valores ocidentais” e um desgaste cada vez maior e, em última análise, insuportável, para as potências ocupantes. Não, não é preciso fazer futurismo; antes pelo contrário, basta fazer passadismo, isto é, ler a História da região.


Em termos ego-ocidentais, ou seja, lendo a História do ponto de vista da Europa (que narra a “descoberta” das Américas e do Japão, e, em geral, avalia o desenvolvimento das civilizações segundo as etapas do desenvolvimento  europeu), a região do Afeganistão passa a ter existência no último quartel do século XIX – quando os ingleses, “subindo” na ocupação da Índia, deram com os russos, que “desciam” na ocupação do Cáucaso.


Nessa época ficou a saber-se vagamente que o Afeganistão já teria sido o centro do mundo árabe. Com dirigentes fortes através dos séculos, invasores mais fortes ainda e insubordinação permanente das tribos. A capital sempre foi Kandahar ou Kabul, dependendo dos senhores.


Antes, já Alexandre tinha invadido,em 330-323 A.C., mas não conseguiu dominar a agitação e as revoltas sangrentas. O islão chegou lá em 652; sob Ahmad Shah 1747-73 foi o maior império muçulmano do século XVIII. Guerras com os persas, os sihks, com toda a gente à volta, sem ninguém conseguir dominar tudo por muito tempo.


Em 1859 os ingleses fecham-lhe o acesso ao mar. Uma década depois os russos atacam a norte mas não conseguem ocupar e em 1873 estabelecem a fronteira que ainda hoje perdura. Entre 1878 e 1880 os ingleses tentam controlar o país mas também eles falham. O máximo que conseguem é um tratado com as tribos em que ficam encarregados das relações exteriores, assunto que evidentemente não tinha qualquer interesse para os senhores locais.


(Sobre esta época vale a pena ler o livro de Rudyard Kipling  “The Man Who Would Be King”, ou então ver a adaptação que John Huston fez em 1975, com Sean Connery e Michael Cane. As lutas tribais, a mitologia à volta de Alexandre o Grande, a venalidade e ingovernabilidade das tribos, está tudo lá.)


Em 1907 Russia e Inglaterra assinam a convenção de S. Petesburgo, consagrando a influencia inglesa. Em 1921 mais uma revolta faz com que a Inglaterra perca a pouca influência que pudesse ter — incluindo as tais “relações exteriores. Em 1930 Nadir Khan une o país, mas a criação do Paquistão, em 1947, rouba muitas terras afegãs. (Estão a ver como os talibã se “refugiam” no Paquistão? Para as tribos, a região é afegã. As fronteiras traçadas pelos ocidentais, as que estão nos mapas, só existem nos mapas, como aconteceu com África).


Com o final da II Grande Guerra, os ingleses afastam-se e os russos aproveitam para se aproximar. (A situação estratégica do século XIX passa para o século XX e chega ao XXI, como se vê.)


As primeiras eleições de que há memória ocorrem em 1969; em 1973 um general derruba o rei e implanta a república que cinco anos depois levaria os comunistas de Najibullah ao poder. Mas o comunismo é um corpo tão estranho como a democracia, nesta sociedade tribal-medieval. Não tarda que as reformas incomodem toda a gente (as mulheres a irem à escola, onde é que já viu?) e os russo perdem a paciência e invadem em 1979. Mas mesmo a brutalidade russa e o completo desrespeito pelos valores humanos (bombas em forma de brinquedos para as crianças, por exemplo) não conseguem debelar aquela malta. Os norte-americanos, encantados com a ideia de darem ao russos o seu próprio Vietnam, ajudam os mujaheeden. A ajuda, olha que interessante, é canalizada pelos serviços secretos paquistaneses…


Dez anos depois os russos saiem com o rabo entre as pernas e é só uma questão de tempo até a república cair e Najibulhah ser executado. A partir de 1989 o país volta à situação que todos preferem e os faz felizes: senhores da guerra, lutas intermináveis entre as tribos, corrupção (se este conceito faz sentido no contexto daquela cultura). Pode perguntar-se: mas se eles andam sempre na guerra, vivem de quê? Ora bem, o Afeganistão, é bom lembrar, tem o melhor ópio do mundo; ora o ópio vale muito mais do que o petróleo e, que se saiba, não tem efeitos nocivos no aquecimento global…


Os talibã chegam ao poder em 94. Mas só entraram no radar do Ocidente em 2001; em Março fizeram explodir os budas de Bamyan, e em Setembro o World Trade Center.


O resto é actualidade, não vale a pena contar.


Agora, pode perguntar-se: ao ler a História da região, porque é que se caiu no mesmo erro — tentar ocupar, modernizar e impingir valores ocidentais a uma sociedade intrínsicamente ingovernável, culturalmente medieval e moralmente islâmica? Os próprios senhores locais, os ingleses e os russos nunca conseguiram unificar e coordenar o país, mesmo utilizando a brutalidade mais bárbara e a injustiça mais impiedosa; o tráfego de ópio, como todos os tráfegos, sobrevive a qualquer regime ou estado de sítio; e o Afeganistão, desde que não exporte terrorismo, não tem qualquer influência no planeta, nem interesse para os jogos de poder regionais ou mundiais. Bastava dizer aos talibã, ou aos senhores que estiverem no poder na altura: “se vocês treinarem terroristas, mandamos os bombardeiros baseados na Flórida arrazar tudo o que se mexer, acima ou abaixo do solo”. Mesmo os afegãos, que disparam as kalashnikovs de pé a andar de frente para o inimigo, respeitam aquelas bombas múltiplas que incineram tudo numa área de vários quilómetros quadrados. Em última análise, desde que os deixem matar-se uns aos outros à vontade e manter as mulheres na servidão, também se estão nas tintas para o que se passa fora da sua restrita área de influência. Os iranianos, que os detestam e fuzilam sumariamente os traficantes, que os contenham a Oeste; os paquistaneses, que os receiam ou se identificam com eles, que os aturem a Sul.


Nós europeus, ou “ocidentais”, não podemos pretender que toda a gente pense como nós, nem ter pretensões de impor os nossos valores a quem não os aprecia. Custa-nos ver aquela “barbárie”? É só não mandar lá a BBC e deixar de ver a Al Jazeera.


publicado por Perplexo às 11:52
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 21 seguidores

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds