Sábado, 7 de Janeiro de 2006

E a Cultura?

Não deve ser fácil ser ministro da cultura. Além da falta endémica de verbas e do desinteresse eleitoral (factores intrinsecamente ligados) o ministro precisa de enfrentar uma classe intelectual quezilenta, invejosa e carente de meios. Que o diga o primeiro ministro da cultura que o país teve, Almeida Garrett. (Na altura não existia o cargo, mas foi isso que ele foi, antes de neutralizado por razões partidárias). Depois dele, houve um tal de Santana Lopes, cuja incompetência e desvarios já não vale a pena falar. (Na altura, o cargo chamava-se Secretário de Estado). Depois de Santana Lopes, tivemos momentaneamente um burocrata desconhecido, Manuel Frexes, que entrou mudo e saiu calado; e depois António Maria Carrilho, o único, além de Garrett, a merecer o título. Sendo Carrilho uma pessoa que, ele sim, nunca se engana e raramente tem dúvidas, aproveitou um apoio governamental inédito para dar vida ao cargo, fazendo e desfazendo com uma competência que mesmo quem não lhe suporta a proa tem de reconhecer. E depois Sasportes, que foi tão bem na Gulbenkian mas nunca percebeu o que é ser ministro; e à ultima hora Santos Silva, um "apparatchik" a fazer carreira; e depois os governos do PSD, cujo primeiro (Governo Durão Barroso) contou com o famoso Homem Invisível, Pedro Roseta, que passou como uma sombra, e o segundo (Governo Santana Lopes,) Maria João Bustorff, não teve nem tempo para ler os dossiers. E agora Isabel Pires de Lima, que é onde queríamos chegar, salvo seja. Isabel Pires de Lima, uma senhora com um ar desempoeirado, académica bem cotada (mal não deve ser, senão a comunicação social já teria levantado a lebre), também parece que não consegue ser suficientemente criativa para suplantar o desinteresse nacional e a falta de verbas. Mas parece ser bastante criativa a arranjar problemas com os altos nomeados pelo seu ministério em gestões anteriores. Digo isto ao acabar de saber da sumária e deselegante substituição de António Lagarto por Carlos Fragateiro, no coitado do teatro de D. Maria, que caiu no descaso e na bancarrota nas mãos de ministros da cultura anteriores e foi salvo in-extremis por um patrocínio da PT. Lagarto (nomeado pelo Homem Invisível em 2004) fez um excelente trabalho à frente do D. Maria, mas parece que isso não impressionou a ministra. Isto em cima da estrondosa queda de Fraúxo da Silva no CCB, motivada (ao que parece) por desentendimentos sobre a Colecção Berardo - outro assunto a comentar um dia destes. No CCB, Pires de Lima escolheu bem; ninguém nega o talento, a competência e o bom gosto de Mega Ferreira. Mas a questão não é se escolheu bem ou mal; a questão é a ministra, que ainda não tinha feito nada que se visse, nem sequer apresentado um rol de intenções que valesse a pena, começar as suas actividades com substituições generalizadas (há outras, no Património e noutros postos superiores), substituições essas pouco cristalinas. Acontece em todos os ministérios, é verdade, mas no caso da Cultura, em que o universo é pequeno e as competências escassas, a coisa é mais visível e, certamente, mais chocante. Mega Ferreira, por mais competente que seja, é também uma pessoa muito ligada ao PS (Fraúxo tinha sido nomeado por Carrilho, mas Carrilho hoje em dia não vale um caracol no partido). Lagarto, nomeado por um governo PSD, é substituído por Fragateiro, ligado ao PS… Não estamos a salientar males do PS, já que o PSP no poder também faz a mesma coisa. Estamos a salientar a impossibilidade de um Ministério da Cultura (ou qualquer outro, por falar nisso) poder funcionar com um mínimo de eficiência quando os seus postos-chave são considerados como de confiança política. Um teatrólogo pró-PSD será menos competente que um teatrólogo pró-PS? Ou um arqueólogo, bailarino ou agente cultural de qualquer espécie será melhor ou pior na sua profissão conforme a opção entre dois partidos que cada vez mais se assemelham na gestão da coisa pública? Estando a Cultura como está, até seria preferível um ministro que não fizesse nada; pelo menos evitavam-se substituições suspeitas e as coisas correriam com um pouco mais de continuidade, dentro do habitual quadro de indigência.
publicado por Perplexo às 15:06
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