Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006

A novela da Galp

A nossa capacidade de ficar perplexos é, ao que parece, ilimitada. Não há desilusão, desengano ou revelação que nos dê o calo suficiente para não mais nos espantarmos com a desfaçatez das cúpulas nacionais. Só para citar os casos dos últimos tempos, ficamos a saber que a pedofilia é um crime impune (onde é que estão os outros milhares de pedófilos?), que a justiça não funciona e não tem conserto, que há os grandes reformados (tudo dentro da lei, como salientou Mira Amaral) e os miseráveis muitos que não têm que chegue para os remédios, que há um dois telemóveis por habitante e um milhão de portugueses a passar fome… Agora, a última é a história nebulosa da compra de uma parte da Galp pela Iberdrola, compra essa em que está envolvido Pina Moura, recente ministro socialista. A questão não deveria ser, evidentemente, a da compra de uma empresa portuguesa por outra espanhola? uma questão ultrapassada pela existência da União Europeia, pelo globalismo e pelas mais recentes teorias económicas. É verdade que nós, portugueses, ainda temos um medo genético de sermos invadidos e ocupados pelos espanhóis. Sete séculos de guerras e invasões castelhanas modificaram o nosso ADN de tal maneira que serão precisos outros 700 anos para percebermos que talvez seja melhor ser uma província contestatária da Espanha (os bascos até têm orçamento próprio e Barcelona é a cidade mais civilizada da Península) do que um território separado e mal gerido, entregue às nossas próprias e incompetentes mãos. A questão é a Iberdrola ser concorrente directa da Galp exactamente na altura em que a electricidade vai ser “liberalizada”; isto é, por um lado podemos escolher o nosso fornecedor de energia doméstica, mas por outro qulauqqer fornecedor pode cobrar o que bem entender… Se a Galp e a Iberdrola forem o mesmo fornecedor, onde é que estarão as opções do consumidor doméstico? Comprar electricidade na Alemanha? Trata-se de um jogo entre os próceres socialistas, o BCP (maior accionista “privado”) e uma empresa espanhola — jogo do qual nada sabemos, nada percebemos, mas que de certeza nos irá prejudicar. O facto de Pina Moura não se sentir minimamente incomodado pelo seu percurso público — directamente de ministro para lobyista da Iberdrola — deixa-nos perplexos, mas faz sentido. Ele tem é que cuidar dos seus, porque é que há-de preocupar-se com o que pensam dele? Com certeza que já ganhou o suficiente para se reformar, ele e a família, em Bali, ou qualquer outro lugar magnificente do planeta onde não tenha de se incomodar com o julgamento da plebe. Porque o nacionalismo é um sentimento nosso, os parvalhões que ainda têm medo do espanhóis, e não se manifesta nas elites bem informadas e melhor remuneradas.
publicado por Perplexo às 00:28
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