Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006

Presidenciais 2

Não são só os inquéritos que o mostram; a maioria das pessoas tem a percepção de que Cavaco Silva inevitavelmente será o próximo Presidente da República — mesmo aquelas que acham tal situação desagradável, ou mesmo aterradora. Primeiro de tudo, Cavaco sempre foi uma personalidade desagradável, com a arrogância mal contida na firmeza fria. Mas não é só o “visual” que repele muitas pessoas (se bem que muitas outras não sejam sensíveis, ou não se sintam incomodadas pelo ar provinciano e antiquado). A sua afirmação-chave, que tão bem colou às suas atitudes, é a famosa “nunca tenho dúvidas e raramente me engano” — que ficaria melhor a um Salazar ou a um Alberto João “Bokassa” Jardim do que a um politico europeu contemporâneo. E depois, não se consegue chegar a uma conclusão se ele foi um bom ou um mau primeiro ministro, tiradas as posturas ideológicas. Beneficiou da entrada na União Europeia e dos zilhões de euros que entraram pelo país adentro, mas é discutível se fez as opções certas. Também, para dizer a verdade, agora tanto faz, ao avaliar a sua qualidade como Presidente; os poderes são outros, praticamente nenhuns. Em termos práticos, um Cavaco Presidente será mais um entrave para o Governo do que uma ajuda. O único poder efectivo que o Presidente tem, o de dissolver a Assembleia, só será usado em situações extremas, seja qual for a pessoa a ocupar o cargo. Vendo então a Presidência como um posto representativo, tanto perante os portugueses como os estrangeiros, Cavaco será uma má escolha. Não tem o charme nem a postura que se esperam do residente em Belém. Nesse aspecto, Manuel Alegre é sem dúvida a melhor proposta. Pode ser um saco de vento (apesar de ter melhorado bastante; num dos debates até conseguiu citar números e estatísticas), achar-se o Camões do Século XX e faltar-lhe profundidade; mas pelo menos tem calado, barba aparada e estilo para o cargo. As suas ideias, muito gerais, de republicanismo e liberalismo, não ficam mal a um Presidente; no entanto será perigoso o seu temperamento vulcânico e a falta de experiência da coisa pública. Mas tudo isto é uma análise filosófica, já que só num cenário quase impossível se possa esperar que ganhe. (Seria preciso que tivesse mais votos que Soares e Cavaco não tivesse maioria na primeira volta.) Quanto aos outros candidatos, estão “apenas” a seguir as respectivas agendas partidárias; as eleições são uma excelente oportunidade de se mostrarem ao eleitorado. Mas não se pode deixar de notar a avassaladora eficiência de Francisco Louçã, sempre bem informado sobre os assuntos e sempre didáctico e certeiro nas afirmações. Também é interessante como Jerónimo de Sousa “rejuvenesceu” um partido à beira da extinção. Numa época em que o radicalismo tem mais força do que a tolerância (veja-se a eleição do Papa Rottweiler, a ideologia ultramontana de Bush, a jihad islâmica, etc.) o PCP fez bem em assumir a sua posição marxista-leninista radical, em vez de ceder às “exigências do mercado”. Quanto a Garcia Pereira, nada a dizer; basta ver os seus cartazes eleitorais, um pastiche do neo-realismo maoista que lhe confere um estatuto de “stand-up comic” político. Finalmente, a aparente confrontação esquerda-direita destas eleições é puramente fictícia. A direita propriamente dita não está representada; a esquerda a sério não tem hipóteses de ganhar; e os dois candidatos com probabilidades não farão mover um milímetro a política do Governo, seja ele PS ou PSP. Darão mais ou menos chatices a esse Governo, ou chatices de um estilo diferente, mas é só.
publicado por Perplexo às 00:27
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds