Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006

As presidenciais

As coisas estão tão más, que lentamente se formou a ideia (errada) de que a Presidência da República terá poderes para as melhorar. Já que votar PSD ou PS não muda nada, ou seja, uma vez a Assembleia da República pode ser maioritariamente “esquerda” ou “direita” sem que isso tenha qualquer efeito nos males endémicos do país, então talvez o cargo mais alto, mais representativo e mais simbólico tenha poderes mágicos de por as coisas na ordem. Soma-se a este clima o facto de termos as eleições mais animadas de sempre desta República, com cinco+um candidatos. Mas é melhor aceitar, desde já, que nenhum habitante de Belém poderá mudar muita coisa, a não ser que tente extravasar os seus poderes — situação impensável numa democracia “estável” e no quadro da União Europeia, onde se controlam os “níveis democráticos” com bastante ferocidade. É neste quadro de falsas esperanças que as televisões continuam a sua cobertura supostamente equalitária dos candidatos presidenciais, mostrando o bom povo a abraçar este, a felicitar aquele e a ouvir o outro. Digo supostamente porque, em princípio, há uma igualdade de tempo de cobertura — excepção feita para Garcia Pereira, que os canais decidiram não levar a sério. No entanto Mário Soares queixou-se abertamente da parcialidade da SIC, sem dizer de que forma se manifesta. Está, parece-me, no texto um tanto humorístico e no tom da voz off, vagamente cínico. Ou seja: Mário Soares deve achar que não está a ser tratado com o respeito que lhe é devido e que, pensará ele, foi dado a Cavaco Silva. No entanto o tom é o mesmo para todos os candidatos. O facto é que Mário Soares se presta mais à chacota do que Cavaco Silva, com as suas atitudes de bonomia sentimental, a movimentação corporal ampla, o passo magestático e a postura paternalista. Cavaco, duro como um tronco de eucalipto, eternamente formal, sorriso sempre forçado, não se presta tanto aos clipes caricatos. Soares queixa-se porque tudo o que não é panegírico já lhe parece hostil, mas não tem razão, e só lhe fica mal queixar-se. Dá a ideia de mau perdedor, o que ele de facto é. E estas eleições estão a correr-lhe mal, porque foram-se acumulando subtis percepções negativas à volta da sua pessoa. Ninguém lhe poderá negar o papel fundamental nesta República; mas há a ideia de que o que ele devia fazer agora era retirar-se paulatinamente, mandar uns bitates de vez em quando e escrever as memórias. Soares é o passado, e as pessoas querem é futuro — um futuro melhor, presumivelmente. Mas há outros aspectos negativos a atrapalhar Soares: por exemplo, ter traído publicamente um amigo, coisa que muita gente faz mas ninguém perdoa. A história com Manuel Alegre é conhecida, não vale a pena estar a recontá-la; mas trouxe à memória uma outra “traição”, contra Salgado Zenha. Também correm histórias de ganância, algumas largamente documentadas e nunca contestadas. É o caso da Emaudio, relatado em pormenor pelo ex-amigo da família Rui Mateus, num livro ("Contos Proibidos - Memórias de um PS Desconhecido", ed. Dom Quixote) que, misteriosamente, não saiu do mercado mas também não se consegue encontrar em parte alguma. O livro tem pormenores suficientes para a história ser credível. O clã Soares optou pela postura de que tamanhas enormidades nem merecem resposta, mas não será a postura mais eficiente para as desmentir. E os factos acumulam-se: Rui Mateus foi varrido do mapa; e Joaquim Vieira, director da "Grande Reportagem", publicou uma série de artigos bastante contundentes sobre o caso e foi sumariamente despedido. (Pode alegar-se que o tom e o tema dos artigos não eram os mais próprios para a revista; mas numa situação destas o normal seria que Vieira fosse apenas admoestado pela administração. O despedimento ainda é mais suspeito porque a “Grande Reportagem” terminou em Dezembro e não faz sentido o director ser despedido dois meses antes.) Há também o caso do Colégio Moderno, em que a família Soares teria adquirido terrenos em circunstâncias pouco éticas, reportado por António Cerejo no “Público” com grande quantidade de pormenores. Tal como as histórias de Rui Mateus, o clã optou por não responder, para além de vagas ameaças de um processo por difamação. A coisa “passou”, mas não deixa de se juntar à ideia geral de que Soares tem esqueletos no armário e força suficiente para os abafar. Na realidade ninguém gostaria, nem conviria à República, que Soares acabasse por se revelar publicamente uma pessoa gananciosa, vã, ou menos correcta. Ninguém quer ver um “pai da Pátria” arrastado pela lama. Já bastam os incontáveis casos, atribuídos a outras sumidades públicas, de corrupções mal esclarecidas, reformas principescas legalizadas pelos próprios beneficiários, desigualdades na justiça, e tantos outros que fazem baixar a nossa auto-estima colectiva. Portanto, assim como há a percepção geral de que Soares não é tão “porreiro” como gostaria de parecer, também há uma espécie de pacto de silêncio para não aprofundar muito os seus aspectos mais obscuros. Contudo, para que esta situação se mantivesse, seria preciso que Soares recolhesse a penates e deixasse intacto o seu lugar na História. E não foi isso que ele fez, ao candidatar-se novamente. Está a esticar demasiadamente a corda, com o risco quase certo de terminar a carreira com uma derrota estrondosa e muitos salpicos de lama.
publicado por Perplexo às 16:24
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds