Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

E agora, que acabaram as eleições...

 Segui atentamente o longo período eleitoral. Ouvi os discursos, ponderei os comentários, avaliei as sondagens. Os resultados parecem-me razoáveis.

Aliás, uma das razões porque acredito na democracia é porque vejo os eleitores escolherem sistematicamente segundo uma lógica de interesse colectivo. Como se o somatório de todos os votantes fosse uma personalidade um pouco temperamental, é certo, mas perfeitamente pertinente.

As explicações posteriores (porque é que ganhou este e perdeu aquele) parecem-me muito convolutas, porque na verdade é muito simples e faz todo o sentido.

Vejamos:

Nas europeias essa personalidade colectiva, somatório de todos nós, pensou o seguinte: (a) Sócrates tem uma política que, em termos gerais está correcta, isto é, no bom sentido; (b) Sócrates tornou-se demasiadamente arrogante, fez uma série de disparates e tem sérias questões de carácter; (c) o resultado concreto da eleição não faz a mínima diferença, uma vez que os nossos representantes em Bruxelas não têm qualquer poder real.

Assim sendo, aqui está uma boa oportunidade de lhe mostrar um cartão amarelo e pregar-lhe um bom susto.

Um outro factor, importante mas não determinante, foi a escolha dos candidatos. Vital Moreira é um totó completamente inepto, desfasado da realidade, enquanto Paulo Rangel é um tipo novo, cheio de energia e focado nas questões.

Portanto, o resultado da eleição foi uma derrota substancial do PS, mostrando-lhe que precisa de mudar de atitude, e uma vitória do PSD, que precisa de alento para se tornar uma oposição credível — tudo isto sem mudar as políticas actuais, que têm aguentado a crise e poderão eventualmente tirar-nos do buraco.

Entre as europeias e as legislativas, Sócrates fez uma tentativa caricata de mudar de atitude — ninguém acreditou numa mudança real, mas viu que ele estava disposto a tentar, o que pode ser o suficiente.

Assim, nas legislativas a tal personalidade colectiva deu a Sócrates a possibilidade de continuar com as suas políticas, mas com a obrigação de mudar de atitude. Mais atento aos efeitos colaterais, menos triunfalista. “Vais governar, mas vais ter de moderar a tua arrogância. E pensar duas vezes antes de fazer o que quer que seja.”

Também nestas eleições houve um segundo factor, idêntico ao das europeias, mas no sentido contrário: Ferreira Leite mostrou-se completamente desastrada e desfasada da realidade, enquanto a campanha de Sócrates foi eficiente e competente.

E assim, estamos como queríamos, dentro das possibilidades que nos foram apresentadas: continuidade e estabilidade das políticas que parecem boas (mais ou menos erros e disparates), mas com um controle maior dos exageros de forma e conteúdo. Vamos experimentar a democracia parlamentar a sério, ou seja, que precisa de constantes negociações e consensos. Porque não? Se o sistema de maioria absoluta provou ter problemas graves, toca a tentar a outra hipótese.

Então e os outros partidos? Bem, a personalidade colectiva não quer fazer experiências demasiado radicais, à esquerda ou à direita. As coisas já são más como estão. Nada de arriscar soluções que podem não funcionar e vão fazer perder um tempo e dinheiro preciosos. Mas é bom que esses partidos tenham força, para o equilíbrio geral. Portanto toca de lhes dar votos suficientes para que vivam e incomodem.

Finalmente, as autárquicas. Aqui a lógica é completamente diferente. O que queremos é uma boa gestão da nossa cidade. A ideologia não é tão importante; seja de esquerda ou de direita, a autarquia não pode mudar fundamentalmente as regras do jogo e o que tem de fazer é gerir bem. Votamos nas pessoas. (Isto está empiricamente provado, com os autarcas que mudam de partido ou passam a independentes e continuam com a mesma votação.)

A utilidade do autarca é de tal maneira importante que votamos nele mesmo que seja um aldrabão ou um corrupto. O que interessa é que faça bem. (Por isso Isaltino ganhou. Fátima perdeu porque no último mandato passou mais tempo a tratar dos seus problemas judiciais, pagos com dinheiro público, do que a gerir Felgueiras.)

No caso de Lisboa, é evidente. Santana Lopes estourou com os cofres municipais e fez um túnel (mais sete piscinas que estão fechadas porque não se previu a manutenção). Gastou dois milhões de euros no projecto para o Parque Mayer que nunca arrancou. Fez uma negociata com o Casino de Lisboa. Finalmente, foi-se embora quando lhe ofereceram um cargo melhor e deixou um tipo ainda mais incompetente e patife no seu lugar. Não há nenhum charme nem conversa que possa contornar estes factos.

Costa fez pouco, mas foi porque teve pouco tempo, e passou-o a endireitar as finanças. Tem um projecto de pequenas obras úteis, que é exactamente o que a cidade precisa.

Não é preciso fazer leituras mais complicadas. Foi isto que se passou. Esta expresso nos fóruns de opinião das televisões, nos comentários aos blogues e notícias dos jornais online.

É interessante como os políticos desprezam a sabedoria popular, quando é evidente que ela existe. Posso não concordar com ela, mas é impossível não lhe reconhecer a existência. O “povinho” está atento e vota segundo os seus interesses. A democracia funciona.

publicado por Perplexo às 08:52
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