Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Mais informação ou maior confusão?

 O Diário de Notícias, o mais antigo jornal diário em circulação, acaba de relançar a sua versão electrónica.

Poucos dias antes, uma tal “jornalista Dina” fez acusações desagradáveis a um ministro do Governo português no seu blogue particular, Escola de Lavores, e o ministro respondeu-lhe directamente, no mesmo blogue e ao mesmo nível.

 

Quanto ao Diário de Notícas, não é o primeiro jornal a igualar a sua prestação electrónica com a escrita (muitos dirão que já vem atrasado); o Expresso há muito que tem o seu site, de grande sucesso na diáspora. Haverá outros, de que não nos lembramos agora.

Por outro lado, o Público ainda não se pode dizer que tenha levado a Internet completamente a sério. Basta comparar a inovação gráfica e o empenho da edição em papel com o arcaismo e desleixo da electrónica. Mas a mudança é só uma questão de tempo.

E o próximo diário a ser lançado, o i, já será mais electrónico do que papelístico. Em vez do jornalista de gravador e bloco de notas e do fotografo com a Canon ao pescoço, o i vai à luta com “equipas multimedia” ataviadas com camcorders e computadores, que poderão mandar para o ar som, texto e imagem directamente da rua, em directo.

 

O fait-divers do blogue, além da saborosa leitura dos comentários e contra-comentários ao suposto deslize de Rui Pereira (cheios de cor local, nós diríamos) mostra a importância dada ao gossip dos bloques nas instâncias mais altas (e sem noção do ridículo...). Uma pesquisa rápida revela que a autora é Dina Soares, jornalista da Rádio Renascença, que não vê necessidade de sair do anonimato para se sair com as queixinhas. Não interessa o ridículo do caso, mas o facto do caso ser possível.

 

O jornalismo electrónico está rapidamente a assumir a preponderância que os teóricos já previam há anos.

O que levanta algumas questões.

 

Uma questão é se tem qualidade para substituir o jornalismo tradicional. A informação/opinião electrónica, com uma tradicional falta de confiabilidade, terá de melhorar substancialmente para ser credível. Uma coisa é oferecer opiniões divertidas e estórias saborosas, outra é informar com os devidos cuidados jornalísticos (duas fontes, contraditório, pesquisa, etc.)

Poder-se-ia dizer que o jornalismo tradicional, e mesmo o televisivo (que já se pode considerar tradicional, se bem que noutra tradição, já abastardada em relação ao escrito) também não apresenta grande independência dos interesses e grande confiabilidade. Contudo há uma diferença substancial entre o trabalho feito nos meios tradicionais e a boataria e o surrealismo que se vê nos blogues, ou mesmo as elações discutíveis e a superciliadade de muitos sites.

Paradoxalmente, a televisão — que se pensou que acabaria com a imprensa escrita e a a rádio, e que afinal não se revelou tão mortífera — parece não estar a sofrer com esta mudança. A televisão integrar-se-á seamlessly (sem costuras aparentes) com a internetosfera, uma vez que os computadores e os televisores estão cada vez mais próximos e eventualmente acabarão por ser fundir. Já podemos imaginar, sem entrar muito na ficção científica, um aparelhómetro portátil, talvez um ecrã flexível sem protuberâncias aparentes, onde cada um interage livremente — escolhendo o que quer ver, cinema, noticário, programas de auditório, e escrevendo e gravando som e imagem à vontade, além de evidentemente, comunicar com toda a gente através de fonia, imagem, texto e códigos de cores.

Outra questão é se o jornalismo consegue meios de subsistência — um “modelo de negócio” viável. Não os tendo, fica ainda mais sujeito do que o tradicional a “adaptar-se” aos interesses politicos económicos.

 

Uma vez que a mudança é inegável e, ao que parece, inexorável, não vale a pena estar agora aqui a chorar em cima do leite derramado e por as culpas nisto ou naquilo (sendo isto a internet e aquilo o modelo económico). O que é preciso é encontrar uma fórmula de aumentar a independência e a credibilidade da internetosfera (sites + blogues).

A mudança de meios pressupõe uma mudança de fontes e produtores; a partir do momento em que a informação pode ir directamente do produtor ao consumidor, sem passar por profissionais, estes tornam-se redundantes. Este fenómeno está a ocorrer agora mesmo com a Administração Obama, que contacta directamente com os cidadãos através da internet (sites, blogs e redes sociais) passando por cima da equipa de jornalistas tradicionais que vive, literalmente, nas caves da Casa Branca à cata do furo. A vantagem para o produtor é dizer o que quer, sem ter de passar pelo filtro ideológico e validatório da comunicação social.

 

Gostaríamos de ter conclusões insofismáveis para apresentar, propostas concretas para fazer; mas não temos. Nem fazemos. Apenas constatamos como é. E assistimos, com uma imensa curiosidade, ao desenrolar do que virá a ser.

A informação livre trazida pela electrónica, tão desejada pode acabar por ser vítima de si própria e morrer às mãos da confusão que está a criar.

publicado por Perplexo às 14:06
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 21 seguidores

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds