Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Playboy: too little, too late

Pois é, saiu a edição portuguesa da revista Playboy. Cinquenta e cinco anos depois de aparecer nos Estados Unidos, trinta e cinco depois de ser possível em Portugal. Numa altura em que as revistas lutam desesperadamente para não desaparecer, sobrepujadas por uma conjuntura económica desfavorável e mudanças inexoráveis nos hábitos dos leitores. Nesta conjuntura, propõe-se vender 80 mil exemplares, uma tiragem de topo para a média nacional. (A Maxmen e a FHM, com tiragens descendentes, declararam 48 mil e 60 mil no último trimestre de 2008).

 

Grande “aposta”, portanto. Uma empresa americana (Fresta Corporation), com interesses dos mais variados (tecnologias, cuidados de saúde, investimentos e têxteis), comprou os direitos da quase defunta Playboy americana e decidiu gastar uns milhões de euros nesta aventura.

Porquê, é impossível saber, ou mesmo especular. Ganhar dinheiro — a motivação mais evidente — não será com certeza. Alguma paixão do Sr. Hugo Fresta por este país, acompanhada por um desprendimento estranho pelo seu rico dinheirinho... Não faz sentido mas dinheiro é dele, gasta-o como quiser.

 

Mas podemos pensar se vale a pena.

Ou seja, se a Playboy traz algo que não tenhamos e que precisemos — ao ponto de pagarmos 3,95€ por mês, quando as revistas já andam perto dos 2€ e praticamente todos os conteúdos estão disponíveis de borla na Internet.

 

Para sabermos se vale a pena, temos duas abordagens possíveis: primeiro, ver qual é o valor intrínseco do conceito Playboy; segundo considerar o valor específico desta edição nacional.

 

Quando apareceu nos Estados Unidos, em 1953, a Playboy representou não só um conceito novo de revista como também uma abordagem nova do sexo e do comportamento. A sua “filosofia”, como Hefner lhe chamou logo à partida, foi uma autêntica pedrada no charco: basicamente, que o sexo é uma actividade natural própria de pessoas normais, que o consumo é moralmente correcto e que todas as ideias (políticas, culturais) podem e devem ser discutidas. Ao longo de uma batalha dura com a censura oficial e os preconceitos calvinistas do país, a Playboy ganhou estatuto, e não só como uma revista de gajas nuas: juntamente com a Esquire e a New Yorker, lutou por todas as causas por que valia a pena lutar (contra a Guerra do Vietname, por exemplo), mostrou o pensamento dos melhores intelectuais, exibiu ficção dos mais notáveis escritores e apresentou a arte dos mais arrojados criadores. Teatro, cinema, humor, ideias, tendências, modas e contra-modas — tudo passou pelas suas páginas, no meio das tais gajas nuas, que cada vez pareciam menos gajas e menos nuas.

Depois, e como todos os revolucionários, a Playboy foi vítima da sua revolução. A liberalização de costumes que tanto tinha defendido ultrapassou-a e acabou por fazê-la parecer careta, parva, fora de foco. As discussões que provocara estavam resolvidas. Passou ao edonismo puro e simples, sem uma causa que o desculpasse.

Resumindo, envelheceu com os seus leitores e perdeu a graça. Apareceram outras revistas mais ousadas, mais cultas e mais contemporâneas. As suas mulheres, pintadas e retocadas, ficaram provincianas, artificiais e, mais uma vez, gajas. As causas que defendeu, ganhas ou perdidas, passaram para outros fóruns.

A chegada da Internet foi apenas o toque final na debacle. De uma tiragem de milhões, passou para as poucas centenas de milhares. Os clubes fecharam, as franchises secaram. A marca, pirateada e ridicularizada, perdeu o significado.

Como fenómeno, e mesmo como negócio, a Playboy acabou.

 

Mas, se a Playboy americana não se modernizou, nada impediria que o conceito fosse adaptado aos nossos tempos noutra Playboy qualquer. Seria possível usar a marca para lançar uma revista mais consonante com a actualidade — com o humor da Wallpaper, o glamour da Vanity Fair e a atitude da Monocle, por exemplo. Até poderia ter mulheres nuas, mas mulheres de hoje, que têm outra atitude quando se despem e se despem noutras circunstâncias.

 

Nada disso.

A Playboy portuguesa é apenas e simplesmente uma cópia tuga da Playboy americana dos anos 1950. Até em Portugal já se fizeram revistas mais contemporâneas e interessantes, com marcas da casa. Assim de repente, e sem pensar muito, a Kapa, a DNA e a Ícon, por exemplo.

Mesmo dentro do conceito da época de ouro da Playboy — a década de 1960 — é uma revista muito fraquinha. Falta-lhe conteúdo e, sobretudo, falta-lhe atitude.

Por exemplo, as entrevistas Playboy. Na americana, algumas ficaram famosas pelos entrevistados, que incluíram  centenas de figuras públicas, formadores de opinião, inovadores e agitadores. Todas elas eram feitas segundo uma técnica particular: dezenas de horas de gravação, ao longo de várias sessões, em que se falava de tudo, para além da especialidade do entrevistado: religião, política, sexo, valores, gostos. As entrevistas da Playboy, editadas depois em vários livros, são um resumo do pensamento da época e uma lista de pessoas de todos os quadrantes, todas elas com algo a dizer.

Quem é que a edição tuga escolheu? Um político, filósofo, opinion-maker, provocador? Não, escolheu o jogador de futebol Costinha, que pode ser uma pessoa estimável, mas cuja carreira que vai do madeirense Machico ao Atalanta de Bérgamo. Em 41 perguntas, nove são do teor “Qual é o seu costureiro preferido?”, ou “Gostou de privar com a realeza monegasca?” e as restantes 32 falam de futebol. Ficamos com opiniões como “Para mim, o Pinto da Costa é um senhor... Faz aquilo que qualquer presidente tem de fazer por um clube...”

Melhor é a entrevista a Pacman, dos da Weasel — superficial, mas pelo menos fala de tudo um pouco e esclarece alguma coisa. Como ele diz, “um gajo fica um bocado burro com a bola”.

Depois há um artigo do patrão, Hugo Fresta, sobre “como enriquecer durante a crise” — isto de um homem que, pelos vistos, está decidido a perder dinheiro...

Ainda nas peças “pesadas” temos uma relato da tráfego de droga na Guiné, coisa sabida e já publicada em toda a parte.

Pedro Paixão e Nuno Markl emprestam duas páginas de crónica e Nuno Saraiva duas páginas de BD. Fora isso, as sessões habituais: viagens, produtos de consumo, anedotas e consultório sentimental.

Desta vez vai ser difícil dizer que se compra a Playboy pelos textos e não pelas gajas.

 

Ah, sim, as gajas. São uma questão de gosto, pode-se sempre dizer bem ou mal. Rute Penedo, a centerfold, é uma “artista plástica” — ficamos a saber que frequentou Artes Plásticas em Évora, daí o título desta guia turística em Ubatuba e modelo, amante da natureza e do body-board. A da capa, Mónica Sofia, participou na “Quinta das Celebridades” e na banda “Delirium”. Há outras, inclusive páginas de repescagem das Playboy históricas — que estão todas disponíveis na Internet, textos e imagens.

Aliás, as fotografias não são grande coisa e a impressão é francamente má. Para não falar na direcção de arte, antiquada e pouco imaginativa. E não é que falte que faça bem cá na terrinha; olhe-se, por exemplo, a série de revistas Blue.

 

No editorial, o director fala do “produto” e usa cinco vezes a palavra “marca”.

O que nos leva a reformular a questão inicial: este produto está de acordo com o prestígio da marca? Traz alguma coisa de que precisemos?

A resposta, infelizmente, é não. Mais uma oportunidade perdida. Se é que chegou a existir.

 

publicado por Perplexo às 12:27
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De Jorge Matos a 10 de Abril de 2009 às 20:47
E o teu filho cresce a olhos vistos. Um abraço.

Comentar post

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 21 seguidores

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds