Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Fome

O Diário do Professor Arnaldo

 

"Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola. Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e, até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos.

Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é óbvio, fiquei chocado. Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também não queria nada a não ser desabafar.

De vez em quando, dão-lhe dois ou três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e recorre à instituição daqui da vila - oferecem refeições quentes aos mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha. Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude.

Sabe que pode contar com a escola. Os miúdos têm ambos Escalão A, porque o desemprego já se prolonga há mais de um ano (quem quer duas pessoas com 45 anos de idade e habilitações ao nível da 4ª classe?). Dão-lhes o pequeno-almoço na escola e dão-lhes o almoço e o lanche.

O pior é à noite e sobretudo ao fim-de-semana. Quantas vezes aquelas duas crianças foram para a cama com meio copo de leite no estômago, misturado com o sal das suas lágrimas...

Sem saber o que dizer, segureia-a pela mão e meti-lhe 10 euros no bolso. Começou por recusar, mas aceitou emocionada. Despediu-se a chorar, dizendo que tinha vindo ter comigo apenas por causa da mensagem que eu enviara na caderneta.

Onde eu dizia, de forma dura, que «o seu educando não está minimamente concentrado nas aulas e, não raras vezes, deita a cabeça no tampo da mesma como se estivesse a dormir».

Aí, já não respondi. Senti-me culpado. Muito culpado por nunca ter reparado nesta situação dramática. Mas com 8 turmas e quase 200 alunos, como podia ter reparado?"

 

CNO do Centro de Formação Profissional de Leiria

publicado por Perplexo às 11:45
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2 comentários:
De inês a 25 de Março de 2011 às 22:33
Sobretudo por ter muitos alunos é que devia ter reparado, porque o que se espera de um Professor é que repare, que esteja atento aos sinais.
Um Professor tem de reparar num aluno que passa fome, tem de se importar com isso, tem de achar que lhe diz respeito e não remeter para as "entidades competentes".
O Professor também é (ou devia ser) "quem de direito" para tomar conta deste assunto, dar-lhe prioridade, e não descansar enquanto não vê solução. Senão o que é que faz na Escola? debita matéria? faz testezinhos da matéria debitada? cumpre horários?

Não, Sr Professor, ser Professor (usei maiúscula) não é deixar passar coisas destas e depois entender que lhe não dizem directamente respeito. Um Professor é um Educador, e deverá ser alguém que ajude crianças a crescer seguras e protegidas. Sendo ou não director de turma!!!

Levante-se, Sr Professor! Indigne-se por cada caso destes, grite, faça-se ouvir, vá ter com assistentes sociais, com a junta de freguesia ou com a paróquia, mas não se demita de ser Pessoa, não deixe uma mãe desesperada com a fome do filho com 10 Euros na mão e pronto. Levante-se e indigne-se alto, Sr Professor!

De mariajosé a 26 de Abril de 2011 às 00:39
Não consigo perceber como isto é possivel ? Como é que um professor não tem mecanismo para entregar este caso a quem de direito é associaçoes por todo lado mas depois não funcionam. Eu no lugar deste professor tinha vergonha.

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