Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Um país, duas realidades

Dei-me ao trabalho de acompanhar o Congresso do PS. Não completamente, minuto a minuto, pela cobertura permanente da SIC Notícias, mas às pinguinhas – a televisão ligada na sala que é o eixo da casa, por onde passava muitas vezes, algumas quedado de boca aberta a ver e ouvir a sagração de Sócrates.

Pode dizer-se que há dois tipos de congressos partidários; o modelo antigo, arcaico e abandonado, à porta fechada, onde se discutem os problemas, se digladiam as facções e, no meio de muita intriga e contar de espingardas, finalmente se chega a um retrato de grupo que se possa mostrar ao país. Participei num desses, o I Congresso do PS, em Dezembro de 1974. Durante três dias várias facções se defrontaram sobre qual deveria ser a estratégia do partido e quem levaria essa estratégia para a frente. Fumaram-se milhões de cigarros, beberam-se milhares de café e fizeram-se e desfizeram-se dezenas de alianças. No final foi possível compor uma imagem de unidade que estava longe de ser real, como se viu pelas cisões que se seguiram nos anos seguintes. Mas foi uma sessão de trabalho, isso sem dúvida, com um confronto aberto de ideias concretas e sonhos definidos.

Depois há o modelo contemporâneo, do congresso mediático, acompanhado ao vivo pela comunicação social, que não é mais do que um espectáculo cuidadosamente coreografado para apresentar ao país o que já foi decidido antes.

Agora todos os congressos são assim, portanto não se pode dizer que o modelo seja exclusivo de nenhum dos partidos. Pode é dizer-se que é um modelo vazio, festeiro e despesista, uma espécie de masturbação pública sem qualquer interesse quer para os congressistas, quer para os eleitores.

Mesmo assim, ou seja, mesmo considerando que o modelo é esse e não pode ser outro, este XVII Congresso pareceu-me particularmente uma cena de teatro completamente desapropriada para a situação em que estamos. Não era esta a peça que estávamos a precisar de ver – uma comédia pateta quando o que queríamos era um debate dramático.

Como se o Partido estivesse complemente unido à volta de Sócrates e certo quanto ao caminho a seguir. Ora a lógica demonstra que tal coisa não é possível. Por mais tachos que os socráticos tenham distribuído e tenham ainda para distribuir, não é credível que num partido tão grande, que sempre conheceu várias tendências, e num momento tão complicado do país, não haja pelo menos duas ou três correntes anti-socráticas. Porque é que elas não se manifestaram, não faço ideia. Por mais autoritário que Sócrates seja, os próprios mecanismos partidários facilitam a divergência. Haverá sempre alguns socialistas suficientemente honestos para dispensar as benesses e prebendas do conformismo. E há quem tenha discordado do socratismo em público.

Mas nada aconteceu. Até Manuel Alegre voltou ao redil. Apenas dois militantes se atreveram a dizer abertamente que as coisas não estão bem. Dois anónimos corajosos e completamente deslocados na euforia geral. Ninguém os ouviu e certamente não voltarão a ser vistos nas hostes.

E porque é que isto nos pode interessar a nós, eleitores?

O facto é que o PS é um grande partido com um papel incontornável na governação. Um PS renovado, sem Sócrates, poderia ter um papel importante num novo equilíbrio de poder – enquanto que um PS socrático terá o mesmo papel no velho equilíbrio, que já se provou que não serve ao país.

A realidade que este partido apresenta não é certamente a nossa. Vive num estado de euforia que desconhecemos, trava uma luta com a qual não nos identificamos.

É o partido dos trinta mil militantes que só têm a ganhar com a sua permanência no poder, contra uma população de dez milhões que só tem a perder. Uma população que, confrontada com a terrível realidade de dois partidos autofágicos que se estão nas tintas para o país, já não sabe para que lado se virar.

Entre a realidade dos dois partidos e a nossa realidade vai uma distância assustadora. Entre as duas, que venha o FMI e escolha.

 

publicado por Perplexo às 08:09
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24 comentários:
De Praquistão a 12 de Abril de 2011 às 01:32
Carissimo, que bom que foi lê-lo! também eu naõ resisti a ir espreitando o congresso, apesar de me irritar profundamente. A verdade é que não me espantei, como se conhecesse tão bem o modus operandi do criminoso, que estava mesmo a adivinhar que algo de tão patético estivesse a ser montado. mas Irrito-me muito, acho até que já nem tenho palavras para classificar este 1º ministro. Aquele congresso pareceu-me como uma monstruosa produção para um reles espectáculo pimba. Patético e ofensivo. como se fossemos todos simplórios como muito daqueles desgraçados que atulharam para dentro do recinto. Mas qual Congresso? Não sou nem nunca fui socialista, mas se fosse estaria hoje profundamente envergonhada. É por isso que continuo sem perceber como é possivel que certos notáveis do PS se permitam associar aquela medrioque encenaçam em que nem eles acreditam.
De Magu a 12 de Abril de 2011 às 12:52
Amigos e Amigas, Portugueses.
Nestas próximas eleições, vamos dizer aos srs. políticos
de todos os partidos, que estamos fartos, das mentiras, da
corrupção, enfim de "eles mamarem, mamarem" e nós cada
vez pior, pergunto onde está o dinheiro, muitos dirão, que
a CDU e o BE, ainda não foram "Governo", não, é verdade,
mas quando se fez a Petição Pública, para baixar de 230
para 150 Deputados, foram os primeiros a dizer que não.
Está visto o que "eles" querem é mamar.
Nas próximas eleições, por favor vai VOTAR, não fiquem
em casa, mas por favor Votem em BRANCO. incentivem
famíliares e amigos, a votar, a votar mas em BRANCO.
Que seja o PR a resolver, e a escolher, pessoas Honestas
para formar um Governo de Verdadeira Salvação
Nacional.
MAGU
De charnequeiro a 14 de Abril de 2011 às 17:08
E será que esse tal "Branco", em que propõe que se vote, não será também dos que só querem mamar?
Veja lá o que aconteceu com o Nobre que parece que ficou doido com o cheiro do poder e, ao mesmo tempo, deixou os seus apoiantes perplexos...
De Magu a 15 de Abril de 2011 às 14:45
Meu caro Charnequeiro, eu de certeza que não quero "mamar", já o podia ter feito há 30 anos atrás, mas prefiro continuar - pobre e humilde, pois nunca abdicaria da verdade, a única "coisa" que queria ver, era pouca ou nenhuma abstenção, mas que votassem em maioria BRANCO, iamos dar uma opurtunidade ao Sr. P.R., em escolher pessoas idóneas (Eu acredito que as HÁ) para formarem um Governo de VERDADEIRA SALVAÇÃO NACIONAL que servim-se o Estado e não se servicem-se do Estado, que é o que estes politicos tem feito, há muitos anos a esta parte.
Que a P.J. investigá-se onde está o dinheiro, pois se o dinheiro fosse florestas, teria ardido, mas como não ardeu, onde é que ele está, eu não o tenho, se calhar o meu amigo também não o tem, mas alguém o tem, veja os casos do BPP e do BPN, não acha escandaloso, veja os casos de Isaltino Morais e de Fátima Felgueiras, toda a gente sai impune, e tantos outros.
Haja alguém que salve este País,
Por isso e por outras, eu VOTO em BRANCO.
DE CERTEZA QUE NÃO QUERO MAMAR.
De Dário a 22 de Abril de 2011 às 01:02
Desculpem mas não acredito nos votos em branco. Apenas porque não tenho a certeza da impossibilidade de algum delegado à mesa colocar uma cruz no local de seu agrado aproveitando alguma distracção.
Voto nulo sim. Voto em branco... não sei bem.
Voto em algum dos partidos? É dar-lhes legitimidade para continuarem a pedir sacrifícios aos portugueses e blá blá blá...
De barrostanque a 12 de Abril de 2011 às 01:57
E se corajosamente começassem a fazer pedagogia duma nova forma de viver neste país sem estes míseros mercenários políticos ?... São eles (TODOS)como uma mão despida da força dos seus dedos, cada um puxando para seu lado, parecendo burros teimosos que não se entendem para comer a palha...Devo estar a sonhar... Com tantos ratos à volta da farinha... Valha-me Deus!...
De rdantas a 12 de Abril de 2011 às 02:06
Têm que chegar o FBI e prender todos esses políticos que nos governaram nos últimos 30 anos começando com o senhor "não comento" que por azar foi eleito Presidente da República porque os ignorantes deste País de merda esqueceram a história de um passado recente.
Cada vez mais pergunto a Deus, porque sou português?
Eu não pedi para nascer com essa deficiência.

De colmar a 12 de Abril de 2011 às 09:47
Sucida-te!
De Simplesmente eu... a 12 de Abril de 2011 às 06:18
A solução era colocar uma placa "vende-se" em Portugal mas não há dinheiro para ela...
De a.marques a 12 de Abril de 2011 às 08:11
Solenes exéquias. Com tantos bispos ao sermão cheira a fumo de novo Papa. Oremos.
De carlos cel a 12 de Abril de 2011 às 11:15
Que coisa é esta, que coisa é esta que trazem na mente?
Nas últimas eleições houve gente que estando recenceada não pode votar. Todos prostestamos e temos razão. Depois ha tambem muita gente que precinde do voto, é um direito. Agora toda a gente quer votar e teria esse direito, caso fossem militantes do PS. Não têm razão, nem têm o direito
De Magu a 12 de Abril de 2011 às 12:50
Amigos e Amigas, Portugueses.
Nestas próximas eleições, vamos dizer aos srs. políticos
de todos os partidos, que estamos fartos, das mentiras, da
corrupção, enfim de "eles mamarem, mamarem" e nós cada
vez pior, pergunto onde está o dinheiro, muitos dirão, que
a CDU e o BE, ainda não foram "Governo", não, é verdade,
mas quando se fez a Petição Pública, para baixar de 230
para 150 Deputados, foram os primeiros a dizer que não.
Está visto o que "eles" querem é mamar.
Nas próximas eleições, por favor vai VOTAR, não fiquem
em casa, mas por favor Votem em BRANCO. incentivem
famíliares e amigos, a votar, a votar mas em BRANCO.
Que seja o PR a resolver, e a escolher, pessoas Honestas
para formar um Governo de Verdadeira Salvação
Nacional.
MAGU
De Anónimo a 12 de Abril de 2011 às 11:39
Na realidade de congresso só teve o nome. Foi antes um comício.
Também não se assistiu a uma renovação, mas à restauração da política bipolar que imperou nos últimos tempos. Não sei se são os últimos tempos deste PS ou se os tempos são únicos para este PS.

Dei-me conta que Sócrates referiu que pelo PSD já tinham passado 4 líderes. Sim, é verdade. Fico surpreso e abismado que neste, repito, neste PS não hajam 4 pessoas com coragem para se constituirem uma alternativa a Sócrates (só vi duas, e isto é muito pouco).
Também o ouvi a apelar ao voto útil contra a agenda liberal. Aqui abriu-se-me a esperança e comentei para comigo: O Sócrates vai cair novamente, ele está a apelar ao voto contra si mesmo. Foi o único rasgo de luz que vi neste comício negro que se celebrou com o nome de XVII congresso do PS. Talvez o título devesse ser: I congresso DESTE PS (Partido Socratiano).

Agora a nível nacional. Uma coisa eu sei, mesmo com sacrifícios qualquer alternativa a Sócrates é e será sempre uma boa alternativa. E para isto não é necessário muito esforço e muitas propostas alternativas. A única alternativa racional é limpar a desgraça que nos foi oferecida pelas mãos de Sócrates e dos congéneres neoliberais que imperam na governação europeia e mundial.

Nota: Algo de novo surgiu com Sócrates, enriqueceu-se a semântica. Hoje podemos dizer que o país vive mergulhado numa miséria socratiana.
De Carlos a 12 de Abril de 2011 às 11:47
Foi um congresso que mais pareceu um comício de um partido que tem estado longe a acção governativa e sem responsabilidades governativas. Serviu apenas para sacudir a água do capote para cima dos outros. Faltou apresentação da obra feita, se é que existe. Depois deste congresso ficou a dúvida. Quem tem governado o país nestes últimos 6 anos? não esquecendo que os primeiros 4 anos foram com maioria absoluta.
De Carlos a 12 de Abril de 2011 às 11:49
Foi um congresso que mais pareceu um comício de um partido que tem estado longe da acção governativa e sem responsabilidades governativas. Serviu apenas para sacudir a água do capote para cima dos outros. Faltou apresentação da obra feita, se é que existe e reconhecimentos dos erros que foram, infelizmente, muitos. Depois deste congresso ficou a dúvida. Quem tem governado o país nestes últimos 6 anos? não esquecendo que os primeiros 4 anos foram com maioria absoluta.
De JM a 12 de Abril de 2011 às 12:28
Também só vi bocados, até fui passear na tarde de sábado e de domingo!
Por isso não sei quantos militantes se manifestaram contra a opinião reinante.
Mas vi os resumos nas TVs(desde RTP1, a SIC Notícias à TVI24, passando pela RTPN) e pareceu-me exactamente igual ao congresso do CDS , talvez até com um bocadinho menos de lágrimas... de crocodilo e, que me lembre não, vi em nenhum orgão de comunicação social apelidar de coreano aquele congresso (mas essas serão outras histórias pois também não considero a comunicação social tão inocente como isso).
Também acho que os Congressos partidários não deviam decorrer em directo, pois assim será muito maior a tentação para o espectáculo ( e vêm-se vários espectaculos por ali) mas como isso hoje em dia acontece até com as sessões na Assembleia da República, onde, percebe-se nitidamente, se fala muito mais para a câmara do que para a Câmara.
Enfim, este é hoje o nosso mundo, é preciso é que tudo isso não nos roube o discernimento.

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