Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

O Expresso provoca paranóia...

O Expresso deste sábado publicou um “novo” Estatuto Editorial. E coloco “novo” entre aspas porque não tem nenhuma novidade – antes pelo contrário é um conjunto de dez lugares comuns jornalísticos que se pensaria que regem qualquer publicação que se pretenda isenta.

A única dúvida que levanta é como é que seria o “antigo” Estatuto Editorial, agora substituído. Seria pouco claro quanto à liberdade e isenção que este afirma tão singelamente?

Mas só o facto de o Expresso publicar – ou republicar com novo texto – um estatuto genérico levantou imediatamente alguns sobrolhos... Não há como não ter assunto para procurar assunto onde ele não existe.

Os dois pontos que parece que assustaram alguns colegas são o 7 e o 8. O 7 reza que “em casos muito excepcionais, há notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque, mas que não devem ser referidas (...) porque a sua divulgação seria eventualmente nociva ao interesse nacional.” Evidentemente que isto lembra logo o “interesse nacional” invocado pelo Estado Novo para censurar praticamente tudo o que não lhe dava jeito, e remete a situações mais recentes em que o Primeiro Ministro acusava os detractores de estarem a lesar o interesse nacional com os ataques constantes à sua idoneidade.

Quanto ao 8, expressa que “a publicação insistente de determinados assuntos - do crime e do sexo às baixezas da vida política e económica - poderia aumentar a venda de exemplares, mas recusa-se a alimentar qualquer tipo de sensacionalismo que ponha em perigo o jornalismo de qualidade que sempre pretendeu fazer.”

Neste caso a construção da frase deveria ser a coisa mais assustadora, mas o que pôs os cabelos em pé foi a história da “publicação insistente”. O Expresso fez precisamente isso, em relação, por exemplo, ao caso Freeport, e o que parece é que agora está a dizer que não o fará mais; a partir deste sábado o jornal não dedicará mais do peças distanciadas umas das outras sobre baixezas da vida politica e económica, mesmo que estas sejam recorrentes e persistentes.

Ora bem, não achamos que haja razão para preocupações.

Por um lado, o Estatuto em nada difere de todos os estatutos que já vimos, novos, velhos e muito antigos. É uma declaração de princípios que, como tantas declarações de princípios, pode ser usada mais ou menos restritivamente, conforme quem a use.

Por outro, é inevitável que haja sempre uma forma de escolha selectiva por parte dos meios de comunicação social – a aceitação de certas notícias e a recusa de outras, o destaque que se lhes dá, tudo isso são formas de censura.

Não me esqueço de uma vez em que estava o Adelino Gomes no antigo Rádio Clube Português com um molho de faxes à frente, a fazer o noticiário das nove e disse-me, com um ar infeliz:

“É inevitável censurar uma data de notícias; não tenho tempo para as ler todas”.

“Mas isso não é censura; é critério de publicação”, respondi-lhe, preocupado com a preocupação dele.

“Mas o critério envolve as minhas opções ideológicas e, até, corriqueiras. Não deixa de ser uma forma de censura.”

Pois, não deixa não senhor. Mas se se publicasse tudo, ninguém lia nada. Há que confiar no critério de quem escolhe. Porque alguém tem de escolher.

Claro, sempre podemos subscrever as tenebrosas teorias da conspiração que dizem que a comunicação social está ao serviço de interesses sinistros.

Quem se quer preocupar, arranja sempre maneira...

 

publicado por Perplexo às 01:31
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1 comentário:
De Na a 1 de Julho de 2011 às 01:03
O jornalista tem um papel imprescindível numa sociedade. Pode toldar a visão de todo um público, pode trazer à luz da praça as notícias que realmente importam ou fazem a diferença, pode direccionar o foco da atenção do público para este ou aquele acontecimento.
Por todas estas razões, considero que os jornalistas (juntamente com os professores - mas isso fica para um outro texto -) são das pessoas mais poderosas duma sociedade. São pessoas capazes da definição de opiniões, pensamentos e, até mesmo, acções.
A função do jornalista é reunir a informação e transmitir a mesma às pessoas. No meio de tanta informação, na era da comunicação instantânea em que vivemos, não é fácil dividir o que é importante do que é acessório. Cabe ao jornalista fazer essa distinção e transmitir os factos que importam ao público, ou cabe às pessoas distinguirem o que interessa no meio de tanta informação?
Um dos grandes problemas da sociedade é aceitarem, quase de forma leviana, o que lhes é dito pelos media. Não pesquisam, não indagam, não verificam a veracidade do que lhes aparece ou perscrutam diversas fontes para cruzar informação. Talvez seja devido ao ritmo frenético ao qual se desenrola a existência actual.
Ora, partindo então do pressuposto de que a maioria das pessoas não investiga a informação que lhe é transmitida e tendo em consideração o impacto que as informações têm na vida das pessoas, conclui-se que o jornalista é um agente fundamental para que a verdade chegue ao público.
Era eu míuda e já uns desenhos animados de batalhas galácticas (cujo nome – estranhamente – não me recordo) tinham como slogan “Information is munition” e, de facto, esta máxima não podia ser mais verdadeira. A informação é um dos meios de poder mais fortes.
Se o jornalista tem um papel assim tão vitalício na partilha de informação, como se pode garantir que o mesmo não é subjugado aos poderes vigentes ou até mesmo à sua própria opinião?
Se, numa sociedade consumista, somos todos cada vez mais e mais escravos do dinheiro, como se pode assegurar que a notícia são os factos e não meras fabricações que vendem?

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