Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

A inversão da culpa

No Rio de Janeiro pratica-se uma filosofia que parece estranha: quando alguém é enganado, roubado, ou passado para trás, a culpa é da vítima e não do delinquente – porque se pôs a jeito, “facilitou”.

História típica: o marido descobriu que a mulher o enganava. Interessava-lhe apanhá-la em flagrante, talvez para efeitos de divisão de bens no divórcio. Foi com duas testemunhas e a polícia ao local do crime, um apartamento da zona sul. Alguém percebeu o que se passava e juntaram-se pessoas na rua. Quando a mulher saiu enquadrada pelos polícias, com um ar compungido, foi aplaudida. O marido, vaiado. Queixinhas, mau perdedor. Maricas.

Outra história típica: uma mulher é assaltada de puxão, e para lhe arrancar o fio de ouro o trombadinha quase que a estrangulou. Comentário: “Pudera, quem a manda andar com aquele ouro todo à vista”.

A nós, portugueses, pode parecer estranho, até perverso, este modo de ver as coisas, mas na realidade praticamo-lo constantemente, numa inversão de valores até mais complexa, mas não menos enviesada.

 

A culpa da crise é das agências de rating, e não das más opções económicas.

 

A culpa da dívida externa é dos especuladores e não do binómio poucas exportações, muitas importações.

 

A culpa do mau governo é dos políticos e não de quem os elege.

 

A culpa do fim da agricultura é dos subsídios e não dos agricultores que os gastaram em SUVs.

 

A culpa do endividamento das famílias é dos bancos que facilitaram o crédito e não de quem gastou acima das suas posses.

 

A culpa dos impostos altos é dos ricos que têm muito dinheiro e não dos milhões que fogem ao fisco de todas as maneiras que podem inventar.

 

A culpa do consumismo é da marcas tentadoras e não de quem se deixa tentar.

 

A culpa da falta de produtividade é da falta de formação e não dos milhões de falsas baixas e outros truques para não trabalhar.

 

A culpa do absentismo é da preguiça e não dos salários desestimulantes.

 

A culpa da bandalheira nas escolas é dos professores que não se impõem e não dos pais que não educam.

 

A culpa da ignorância é da juventude que não estuda e não dos adultos que não os obrigam a estudar.

 

A culpa do que nos acontece a nós é sempre dos outros.

 

E a culpa do que acontece aos outros é bem feito.

publicado por Perplexo às 09:30
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1 comentário:
De Anónimo a 18 de Agosto de 2011 às 02:02
Concordo em absoluto!!! A culpa é sempre dos outros,
mesmo na nossa vida privada, mesmo com a educação dos filhos, em tudo.

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