Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

A coscuvilhice digital

A Casa dos Segredos foi um tão grande sucesso que a TVI decidiu fazer uma segunda edição melhorada, que foi para o ar ontem com grande estardalhaço.

Contabilizou um recorde de 60% de share, o que corresponde a um milhão e quatrocentos mil espectadores - que, sem ter consciência, entraram numa nova etapa da híper-realidade.

 

Os primeiros reality shows assentavam na premissa de que toda a gente gosta de coscuvilhar a vida alheia e de ver a intimidade dos outros. Primeiro recorreram a pessoas comuns, até comuns de mais, depois a personalidades mais ou menos famosas, e depois ainda a combinações diversas. Em todos os casos, a escolha dos participantes não teve nada de casual; foi feita por especialistas, de modo a ter uma combinação equilibrada de personalidades conflitantes e proporcionar as várias dinâmicas entre eles. Uma vez fechados, os participantes eram direccionados de fora a terem certos comportamentos, embora surgissem situações inesperadas – o que ajudava ao suspense, evidentemente.

 

Mas a Casa dos Segredos já pertence a outra geração de reality shows. Primeiro, não há maneira de perceber se os participantes são pessoas ou personagens; será que a Daniela se chama mesmo Daniela e vive realmente no Luxemburgo? Segundo, as suas acções são orientadas antes, ou seja, têm de desempenhar certos papeis – alguns que o público fica a saber, outros que não imagina. A diferença entre o real e o ficcional é impossível de determinar e, para dizer a verdade, tanto faz. O que interessa é que os espectadores, sentados nos sofás das suas casas, vão ter a possibilidade de fazer uma devassa completa naquelas vidas.

 

Antigamente essa devassa fazia-se no prédio, no quarteirão, no bairro. As vizinhas sabiam tudo sobre os vizinhos, e o que não sabiam inventavam. Hoje já não há vida de bairro, por razões que todos sabemos (e que não vamos dizer aqui, que isto não é nenhum estudo de sociologia). Os vizinhos não se falam nos elevadores rápidos, não se cruzam nas garagens da cave, não se encontram na loja da esquina. Daí a necessidade e a alegria de coscuvilhar em toda a segurança do lar, sem uma exposição recíproca aos mexericos da vizinhança.

 

Em 1998 o filme “The Truman Show” mostrava um tipo que desde a nascença era seguido por câmaras ocultas, com toda a sua vida exposta diariamente na televisão, sem que ele soubesse. A mulher, os filhos, todas as pessoas com quem interagia eram actores profissionais, a viver numa cidade fictícia metida numa bolha, onde até o estado do tempo podia ser controlado. A história é que Truman começa a desconfiar e, finalmente, percebe que há uma outra realidade menos feliz, mas mesmo assim anseia por ela. É um filme que antevê a situação dos reality shows, mas os reality shows deram um passo em frente: todos os participantes são uma mistura de realidade e ficção. Provavelmente alguns saem de lá já sem saber o que deles é real ou espectáculo.

 

Quanto aos espectadores... Certamente supre alguma necessidade das pessoas e as deixa satisfeitas – isto é, inofensivas. Quando a realidade parece tão desanimadora e, até, perigosa, a coscuvilhice à distância é bem menos agressiva do que tomar anti-depressivos.

publicado por Perplexo às 09:21
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5 comentários:
De Gena Resende a 19 de Setembro de 2011 às 22:05
Inicialmente não era para fazer qualquer comentário a este post, já que não assisti ao programa. Estive desde manhã a pensar se haveria de o fazer ou não. Quanto mais não fosse por louvar o texto, lindamente escrito, como é hábito. Mas falou de um filme que também não gostei, aliás não gosto do actor, o Jim Carrey. Até hoje não vi um único filme com ele de que gostasse. Está irremediávelmente marcado pelo papel de a Máscara, na minha cabeça! Tal como o Anthony Hopkins, que ainda hoje não vejo como Hannibal, mas pelos anteriores papeis como Brideshead Revisited etc. E ainda bem, apesar de achar o papel dele, magistral, em Hannibal, prefiro-o bem mais noutros, até mesmo no Joe Black, com o Brad. Ou em Lendas de Paixão. Assim, o efeito de registo de memória (minha, of course), não ficou estragado. Congratulo-me porque menos de 15% da população total deste país, assistiu aquela porcaria.

Enfim, cada um faz da sua vida o que quer. No meu caso preferi estar a assistir a dois bons filmes enquanto engomava. Nem um milhão e meio de alminhas...o que começa a ser bom. O que me leva a pensar que possivelmente começa a haver mudança. Por outro tinha havido futebol e as pessoas foram jantar ou beber uma bejecas...Esperemos que até baixe a audiência, mas sinceramente não acredito, infelizmente!!!
Outra coisa que me irrita solenemente é que depois destes programas de treta começarem, outros vão sendo interrompidos para anunciar a porcaria. As revistas com programação de TV só trazem estas notícias e a exploração da vida de cada um etc.


Algo cuja antevisão, na minha prespectiva entenda-se, foi depois do livro de George Orwell e do seu famoso 1984, na ocasião uma data ainda longínqua, onde o "grande Irmão" tudo vigiava e tudo controlava.

Fico de certa forma atónita com o facto que o José refere. Muitas pessoas nem os seus vizinhos conhecem, ou se os conhecem é de vista e é um "bom dia" ou "boa tarde", dados quase em surdina e de soslaio!. Mas para saberem a vida alheia, estão sempre disposto, nomeadamente neste estilo de programas, revistas de toda a espécie etc. Ainda há dias estava na Papelaria para comprar uma das revistas que costumo comprar sobre arquitectura, quando entrou uma senhora e pediu uma daquelas revistinhas que saem uma cada dia, todas iguais, apenas mudam o nome.
Já não havia... a dona da loja vai fechar para 15 dias de férias e mandou vir poucas...Ah mas( apontando para a minha revista) desta "porcaria" ainda tem, a minha é que não..."

Acho que isto diz tudo e com isto acabo o meu comentário. Temos o que merecemos!
De Gena Resende a 19 de Setembro de 2011 às 23:30
O que queria dizer era:

"Algo cuja antevisão, na minha perspectiva entenda-se, foi depois do livro de George Orwell e do seu famoso 1984, na ocasião uma data ainda longínqua, onde o "grande Irmão" tudo vigiava e tudo controlava. "

Escrevi mal a palavra perspectiva, esqueço sempre a correcção ortográfica.
De golimix a 21 de Setembro de 2011 às 21:34
Também não assisti nem a este, nem ao outro programa, nem faço intenções de gastar a minha rica energia e tempo com o mesmo! Dei uma olhadela no primeiro "Big Brother" e foi só.
Corroboro inteiramente com a opinião anterior à minha, não gosto do ator do “The Truman Show” (Jim Carrey) , que vi à muitooo tempo mas relembrei hoje.
Tenho infelizmente que admitir que nos tempos de hoje é "in" assistir a estes espetáculos, o problema é que eu estou "out".
É possível ter conversas interessantes com os vizinhos sem ser a falar da vida de ninguém, mas parece que o ser Humano tem uma tendência curiosa para a coscuvilhice, lá isso tem...
De Gena Resende a 21 de Setembro de 2011 às 23:42
Golimix ,
concordo em absoluto consigo.
Há tanto para se fazer bem melhor do que assistir a tal degradação ...é notícias, shows, programas de entretenimento à tarde para vovós e crianças chegadas da escola assistirem, onde se leva até à última a exploração humana e as condições de vida do ser humano. Se algo acontece mesmo longe, lá vai um parvalhão de um dos nossos jornalistas...como se não estivessem lá outros já de tantos outros sítios... gasta-se dinheiro a rodos e falo particularmente dos canais do Estado... dinheiro em parte pago pelos contribuintes através daquela bendita taxa na electricidade. O Estado só saca e o mau serviço está à vista de todos. Só prejuízos nas empresas públicas. Pois pudera...os milhões que os gestores ganham e recebem de prémios. O Almerindo que o diga, mamou até querer na RTP e agora nas estradas de Portugal, vem fazendo avisos...mas se bem me lembro ouve distribuição de dividendos... É como as SCUT , construídas através do Feder, para colmatar as diferenças entre as regiões e para diminuir a pobreza, com dinheiros a fundo perdido ou a juros irrisórios, não podem ser portajadas , e veja-se, o desplante destes ladrões.
É tudo boa gente!!

Quanto a esses shows, estou crente que são "produzidos" para inglês ver, isto é, para entreter a malta, tal como as novelas, que não escapa uma de tão más serem. Para que as pessoas não pensam no que deviam. Temos um Presidente que me faz lembrar o Américo Tomás...e um governo que ameaça veladamente aos que quiserem manifestar-se...os 37 anos de democracia vão a enterrar!!!
De golimix a 22 de Setembro de 2011 às 12:22
Ainda hoje saiu fresquinha a proposta do "despedimento por justa causa"!
Compreendo que é difícil gerir uma empresa.
Mas o que acho é que se está a fazer uma casa ao contrário... eu explico, tudo passa por uma educação de mentalidades de que é preciso ser produtivo, não sob ameaça de despedimento ou outro tipo de medidas, mas sim pelo gosto de o fazer. Aí também teríamos de falar das nossas escolas e da forma como o ensino está estruturado... enfim... um mar de razões que podem não só explicar a necessidade de se estar "anestesiado" com programas da treta, como a passividade com que se encaram certas medidas que este e outros Governos vão tomando. Sim, é uma pena que se deixe enterrar a democracia!

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