Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

Pessoa, Génio

Steve Jobs morreu há um mês, ao fim de meia dúzia de anos de intensa exposição mediática – para ele e para a “sua” Apple Computer. Sempre teve os seus seguidores fanáticos, um pequeno grupo de cinco por cento dos utilizadores de computadores pessoais, que se sentiam cercados por um universo hostil e rebarbativo de PCs Microsoft. Fora da seita, isto é, a grande maioria da população, ignorava completamente a existência de um sistema operacional diferente do Windows. Diziam os macmaníacos, e com razão, que Jobs tinha lançado todos os avanços em computação pessoal – primeiro computador doméstico, o rato, o interface gráfico, a diskete rígida 3 ¼ - e que a Microsoft se limitava a copiá-los, e mal, anos depois. O facto é que os computadores eram muito caros, não faziam multitasking, não davam acesso ao código e quase não havia software para eles. Nesses anos de semi-obscuridade, Jobs também criou o melhor e mais bonito computador gráfico de sempre, o NEXT, que era ainda mais caro e mais bonito e não vendeu nada.

 

Tudo mudou com o lançamento do iMac, em 1998, desenhado por Jonathan Ive. E o mundo não Apple tomou conhecimento da marca em 2001, com a mudança radical do negocio da música através do iPod. A partir desse sucesso, os Macs portáteis começaram a vender cada vez mais, e depois o iPhone veio revolucionar o mercado dos telefones e o iPad criou uma nova gama de produtos que ainda não se sabe bem qual será.

O facto é que em 2010 a Apple ultrapassou a Microsof como empresa tecnológica mais importante do mundo e quase se tornou a maior empresa do planeta, só atrás da Exxon. Mas, mais do que as vendas, a Apple e Steve Jobs tornaram-se sinónimo universal de criatividade, uma mistura insuperável de grande tecnologia e bom gosto. Os produtos Apple são chiques, cool, sinónimos de modernidade. Toda a gente os quer e os da concorrência, feitos à pressa para aproveitar a novidade, não têm o mesmo toque, o peso, a estética e a atitude, mesmo que as especificações sejam idênticas, ou até melhores.

 

Pouco se sabia sobre a vida particular de Jobs. Mas acaba de sair uma biografia profissional e bem documentada, assinada pelo especialista Walter Isaacson. Feita a partir de 40 horas de gravações com Steve e entrevistas a família, parceiros e amigos, apresenta o homem completo, para lá do seu trabalho – a pessoa, o familiar, o amigo. E o balanço não é nada favorável. Mostra um homem teimoso, obcecado, frio com os seus próximos, nada generoso, injusto nas amizades, violento com os colaboradores, autocrático e arrogante. Fez coisas horríveis, como negar a existência de uma filha do primeiro casamento e recusar-se a conhecer o pai natural; e coisas estúpidas como seguir a dieta vegan e não querer tratar clinicamente o cancro que o mataria. Sem ser técnico ou designer, impunha ditatorialmente os seus conceitos (maravilhosos, de facto) aos técnicos e designers que o aturavam. Controlava tudo e todos e chamava a si os louros de aparelhos concebidos por uma equipa dirigida militarmente. Não fazia donativos para caridade nem ajudava os necessitados.

 

Nada do que agora se sabe sobe o Steve Jobs pessoa retira a sua qualidade de génio. Mostra-o até à luz em que tem de ser visto: como um ser humano, com os seus defeitos e qualidades. Os privilegiados não foram os poucos que privaram com ele, mas são os milhões que beneficiam com a sua criatividade.

 

Para nós, pessoas comuns, não deixa de ser consolador saber que os génios não são seres perfeitos. Afinal de contas, em todos e cada um, a normalidade não exclui a hipótese da genialidade. Mesmo que nunca se manifeste.

 

publicado por Perplexo às 08:15
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3 comentários:
De vitor neves a 2 de Novembro de 2011 às 20:13
Ainda bem que saiu a bendita biografia. Sem querer agora sacrificar o homem, reconheço que do ponto de vista estético, soube agarrar o mercado e fidelizar uma boa fatia. Do ponto de vista técnico, não lhe reconheço méritos, por saber-se como lidava com os subordinados. Nunca inventou nada (chegou mesmo a roubar ideias na Xerox) e quem o pode garantir é Steve Wozniak (o verdadeiro génio que arrancou com a Apple). Depois de abdicar do hardware exclusivo, para desgosto dos fanáticos, já pouco falta para abdicarem do Sistema Operativo. Não tarda e teremos os belos produtos de sempre com o design fino e elegante Made in China (de onde provêm todos os equipamentos da maçã).
De Pedro Pereira a 16 de Novembro de 2011 às 23:34
Quanto mais conhecemos uma pessoa, menos gostamos dela. Eu conheci um NeXt circa 1990 e digamos que gostei mais dele do que muitas pessoas. Um dia virá em que os computadores não nos deixarão fazer coisas horríveis como "negar a existência dos filhos" ou ser "arrogante com os subordinados". Um dia virá em que os computadores não nos deixarão fazer nada porque só fazemos asneira. Esse dia está perto.
De HP a 9 de Dezembro de 2011 às 08:42
De bem sucedido numa qualquer àrea a génio, ainda vai uma distanciazinha. Faz-me confusão o uso de formas absolutas, génio é uma delas. Teria a mesma opinião se o chamassem "Steve Jobs, o burro".

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