Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

De Janeiro a Janeiro

Como seria de esperar, a notícia de que Alexandre Soares dos Santos deslocalizou os seus activos na holding do Pingo Doce para a Holanda, para fugir aos impostos portugueses, levantou ondas de choque, da Assembleia da República à Republica dos Blogues. Grande oportunidade para a esquerda fazer frases de efeito e para a direita justificar as suas opções políticas.

Até o Álvaro se viu obrigado a comentar – e nada disse, como é seu hábito: “Não tenho por hábito comentar decisões de privados”. E muito bem. O Governo não tem nada que comentar decisões de privados. Tem que levar essas decisões para onde mais nos convém, através de políticas certas.

Essas politicas, diz a direita, não é aumentar os impostos mas sim criar um ambiente saudável para que as empresas queiram ficar em Portugal. (E enquanto diz isto, aumenta os impostos e nada faz para criar um ambiente saudável.)

 

A atitude de Soares dos Santos merece reparos, mas não pelas razões apontadas tanto pela esquerda como pela direita. Senão, vejamos:

Há duas questões a considerar.

A primeira é a coerência entre o que se diz e o que se faz. Soares dos Santos disse várias vezes, em assembleias públicas e na comunicação social – isto é, para que ficasse registado – que “as elites têm que ser responsáveis e uma das principais ameaças ao desenvolvimento é faltarem políticos, empresários, intelectuais, académicos e sindicalistas independentes, capazes de poderem exercer por inteiro a sua responsabilidade”. Ele não disse como essa responsabilidade deve ser exercida, mas com certeza que está implícito na afirmação precisamente o oposto do que acaba de fazer. Ninguém lhe pediu tais comentários, portanto fê-los voluntariamente e devia agir de acordo.

Mas porquê terá ele responsabilidades? Porque o dinheiro que  Soares dos Santos ganha vem do bolso dos portugueses. Não vem do bolso dos holandeses nem dos belgas. Se ele o gastasse em Portugal, era dinheiro que voltava para o mesmo bolso. E os impostos que ele pagaria, por mais mal gastos que fossem pelo Estado, de algum modo seriam derramados na nossa economia.

Além disso, foram essas compras dos portugueses que lhe permitiram investir na Polónia, depois de uma má incursão no Brasil ter deixado a Jerónimo Martins sem capital.

No fundo, Soares dos Santos está a prejudicar-se, a longo prazo, para ter mais lucro a curto prazo. O interesse dele é vender mais e ter lucro. Ao relançar o dinheiro ganho na nossa economia, quer através dos impostos, quer através dos seus gastos e investimentos, melhorava a situação dos cidadãos, que logo comprariam mais no Pingo Doce e lhe dariam mais lucro. E para ele, para a sua vida diária, tanto faz cem milhões sem impostos ou cinquenta milhões depois dos impostos, porque em ambos os casos pode continuar a andar em carros topo de gama, vestir-se em Hollywood Drive, comprar o que lhe apetecer e comer principescamente todos os dias.

Que diabo, Soares dos Santos é o segundo homem mais rico do país. Em 2010 a Jerónimo Martins vendeu 281 milhões de euros e teve um LUCRO de 79 milhões. Se ele não pode pagar impostos, como poderão os outros 99,9% dos portugueses pagar? E se ele não quer, porque havemos nós de querer? Porque a escala também conta; é diferente quando temos de pagar 50% de um lucro de cinco mil ou de cinquenta milhões. Mas quem ganha, digamos, mil euros de salário desconta 50% de impostos, enquanto que quem tem um milhão de lucros não desconta nada. Até o Warren Buffet se insurgiu contra tamanha injustiça.

 

publicado por Perplexo às 18:51
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