Sábado, 22 de Setembro de 2007

Esquerdismo ou lirismo?

Há muitos anos que me considero de esquerda. (É verdade, fui de direita na adolescência, mas disso prefiro não falar.) Mas "esquerda" é um conceito que, por mais estranho que pareça — uma vez que era tão bem definido e acertivo — tem mudado, assim como tem mudado o que é ser de esquerda. 


Nas décadas de 1960 e 70, antes do 25 de Abril, era uma atitude contemporânea, chique, que revelava conhecimentos superiores sobre o que se passava no mundo. (Não estamos a falar dos activistas do PCP, para quem era uma missão sagrada e, evidentemente, um perigo de vida.) 


No período revolucionário foi uma espécie de bebedeira, uma viagem alucinogénea em que o real e o imaginário se confundiam numa alegre festa na praça pública. 


Depois da entrada na Europa e do retorno da autoridade do Estado, passou a ser uma proposta moderada para acabar com os pobrezinhos. 


Aos poucos, sem que se desse por isso, ser de esquerda tornou-se numa parvoice olhada com desdém pelos adeptos da sociedade de consumo — conforto, compras, carreira — que vêm a postura como carolice ou patetice. E surgiram uma série de intelectuais de direita, jovens inteligentes e com a carreira em vista, capazes de demonstrar a irracionalidade e a falsidade das propostas do PREC. A "queda do muro", e tudo o que se seguiu mostraram até à exaustão a brutalidade, a injustiça e a ineficiência do Estado de esquerda.


Entre o velho hippie que fica no café a contar os pormenores do 26 de Abril e os ex-comunistas que dirigem o Estado e enchem o bolso, a esquerda realmente envelheceu muito mal.


Claro que podemos ajustar o vocabulário, nesta época intelectualmente barroca, em que as nuances são tantas que nem se consegue perceber as grandes verdades absolutas doutros tempos. O comunismo era, foi, reaccionário, esquerda é outra coisa, os trotskistas têm um Bloco e jamais falam as palavras probidas, m-l... Os partidos, mesmo com nomes de esquerda, querem mais é defender os activos dos acionistas. E a direita, mesmo aquela mais transmontana, lambidas as feridas e recuperado o susto, acumula capital placidamente, queixa-se da roubalheira e da pouca vergonha da República, e abotoa-se o mais que pode.


Fará ainda sentido ser de esquerda?


Haverá pachorra para levantar a questão, entre uma ida ao supermercado e umas férias no estrangeiro?


Pois, não há pachorra.


Mas continuo a considerar-me de esquerda. Mais que não seja, para chatear o conservadorismo complacente que permite todas as injustiças.


Paranóico? Provavelmente.


Perplexo, cada vez mais.

publicado por Perplexo às 22:36
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