Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Agosto em Lisboa

Ora, finalmente chegamos aquela grande época do ano em que Lisboa fica mesmo palatável. É como se, de comum acordo, todos os idiotas que moram ou visitam diariamente a cidade tenham decidido imigrar para outras partes — para as terras de origem, os mais carenciados, para o Algarve, a classe média e média alta, e para a os iates do Mediterrâneo, os que podem e sabem - e as ruas ficam desertas, os passeios disponíveis, o trânsito fluido e há espaço para respirar, passear e laurear a pevide. É uma visão romântica, eu sei; na verdade só cá ficam aqueles que por dever do trabalho ou por falta de verba não podem ir-se embora. Mas o facto é que Lisboa se torna uma cidade habitável, com pouca gente que, por alguma razão que à razão escapa, mostra uma boa disposição, uma aisance e uma leveza jamais encontradas nos meses intensos do outono-inverno.


O município - isto é, aquilo que tecnicamente constitui a cidade, sem os conselhos periféricos - está um lixo, é verdade, com os pavimentos rebentados, calhas de eléctrico abandonadas há 40 anos a fazer escorregar os pneus, obras que ocupam os passeios em volta e espalham pó e barulho num raio de cem metros, entulho e desleixo por toda a parte. Mas, neste mês de pouco movimento, as mazelas nem incomodam tanto, e os poucos habitantes (e muitos turistas) passam por elas paulatinamente, abafados pelo calor e ligeiros na paisagem desimpedida.


Devia fazer-se um lei, norma, regra, ou lá o que fosse necessário, para fechar as portas da cidade. Quem saiu, azarito, não pode voltar mais. Quem ficou é premiado com uma cidade onde se pode andar à vontade, atravessar descuidadamente e frequentar os restaurantes, tascas e quejandos sem ter de fazer reserva ou esperar na fila. Neste mês de Agosto Lisboa, que se tornou uma das cidades mais desagradáveis da Europa, volta à pacholice saloia que é a sua natural vocação.


Os meus restaurantes preferidos, o Galeto (galeria de tipos urbanos mais abrangente do que a colecção Berardo), o Gambrinus (onde é que eles arranjam aqueles empregados?) e a Mascote do Sacramento (peixe extraordinário a preços inacreditáveis) estão quase vazios e o pessoal, encantado por nos ver, trata-nos como família. Os museus, completamente às moscas e com ar condicionado a toda a força, são verdadeiros oásis de arte e descanso. E as boites, bares e similares, cheias de estrangeiros, têm um ambiente cosmopolita cheio de possibilidades.


Se alguma vez decidir emigrar ou, numa solução mais abrangente para as agruras da vida, optar por me suicidar, será certamente num princípio de Setembro.


 

publicado por Perplexo às 01:52
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