Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

Um "nós" que nos pode fazer grande diferença...

O mundo inteiro está suspenso nas eleições legislativas “intermédias” dos Estados Unidos. É a maldição imperial: quem vota são os americanos, mas os resultados terão uma grande influência (de vida ou de morte, em muitos casos) nas vidas de milhões de não-americanos. É como se o nosso futuro, o nosso destino, estivesse à mercê da opinião de um redneck estúpido do Dakota do Sul.


Talvez esteja a dramatizar um pouco, mas nem tanto. Na realidade, os resultados desta eleição não se farão sentir imediatamente, uma vez que o regime presidencial norte-americano na maioria dos casos dá a Bush poder de decisão acima das câmeras, e sobretudo nos casos mais decisivos. Ser-lhe-á mais difícil governar, mas pode continuar com as suas linhas políticas gerais, nomeadamente no campo ambiental e internacional, as duas áreas que mais nos afectam a médio e longo prazo. Pior ainda, os estragos que a “administração” Bush causou ao mundo são irreparáveis: o mundo mudou, e para pior, por causa das suas desastrosas decisões, e pode consertar-se (talvez) mas não se pode voltar atrás.


No entanto estas eleições, que apenas mudarão uma parte do Senado e da Câmara dos Representantes, têm efeitos importantes: primeiro, servirão para confirmar a rejeição do eleitorado à política de Bush, darão aos democratas novo alento para as presidenciais daqui a dois anos, e tirarão ao Presidente alguma legitimidade nas decisões que vier a tomar. Abrem uma janela de esperança, digamos assim. Por isso o mundo segue atentamente as desinteressantes peripécias das eleições – desinteressantes porque os discursos dos republicanos, agora reduzidos a um maniqueismo maoista, ficam-se simplesmente por “ou nós ou o terror”, enquanto os democratas não têm realmente nada a dizer. Querem mudar as linhas da gestão Bush, mas não sabem como nem quando. O poder tornou-se uma batata quente, e ninguém sabe como será que o próximo Presidente irá descalçar as botas de ferro que este calçou.


Mas então, no meio do desinteresse dos discursos, eis senão quando surge John Kerry, o candidato derrotado das presidenciais passadas, a dar uma ajudinha aos republicanos. Kerry, que não é parvo mas parece, devia ter ficado em casa, sabida que é a sua inaptência para comunicar com as massas. Em vez disso, foi fazer uma afirmação que aparentemente “ofende as forças armadas”, atitude que não fica bem a ninguém num momento em que as ditas forças armadas estão a penar para se manter ao de cima no Iraque, com as baixas a crescer diariamente. Os republicanos, desesperados com a perspectiva de perderem as câmaras legislativas, e sem terem realmente nada a que se agarrar a não ser o patrioteirismo mais básico, não perderam tempo com uma barragem mediática, e Kerry imediatamente pediu desculpa – a pior coisa que se tem de fazer a seguir a fazer uma coisa má. Contudo, será interessante analisar o que Kerry disse, porque não foi uma estupidez em si, mas apenas uma afirmação complexa demais para um discurso de campanha. Literalmente, foi o seguinte:


“Vocês sabem onde vão acabar se não estudarem, se não forem espertos, de tiverem preguiça intelectual? Vão acabar metidos numa guerra no Iraque. Perguntem como é ao Presidente Bush.”


Para já, o que aconteceu foi que Kerry tinha o texto escrito, um texto ligeiramente diferente: em vez de “vão acabar metidos”, o que lá estava era “vão acabar por nos meter” (“you end up getting stuck”, disse ele, “you end up getting US stuck”,dizia o texto). Portanto, o discurso escrito dizia que um retardado como o Bush, que não estudou, não é esperto e tem preguiça intelectual, meteu-nos numa guerra no Iraque. O que é verdade, evidentemente. O que Kerry acabou por dizer é que quem não estuda, etc. acaba entalado no teatro de operações do Iraque. Um erro imperdoável no discurso, mas não exactamente um conceito errado, e o deslize de Kerry provavelmente será porque pensou nisso mesmo.


Ora vejamos: desde que os Estados Unidos acabaram com o serviço militar obrigatório, as tropas americanas passaram a ser formadas por duas instituições distintas: as Forças Armadas propriamente ditas, compostas por militares profissionais, contratados e pagos como em qualquer outra profissão, e a Guarda Nacional, uma milícia de voluntários, que em tempo de paz treina umas semanas por ano e faz exercícios mais ao menos ao estilo de “paintball”. Agora, em tempo de guerra, é a Guarda Nacional que fornece a maior parte do contingente para o Iraque, mediante contratos individuais com bastantes benefícios. A maioria da Guarda Nacional é composta por gente que foi para lá porque não sabia fazer mais nada: desempregados, pequenos delinquentes, gente sem profissão e sem destino na vida que não nunca conseguiria arranjar um emprego tão bem pago. Há também muitos imigrantes, pois o contrato com a Guarda garante-lhes a nacionalidade americana no final do serviço. Por outro lado, não há ninguém com boas habilitações profissionais ou com nível económico que se meta na alhada de ir para o Iraque – tanto que o exército se tem visto aflito para cumprir as quotas e viu-se obrigado a aumentar bastante os benefícios (seguro de vida, por ex.) e a reduzir os critérios (pequenos delinquentes, por ex.). Portanto não é errado dizer que o grosso das forças armadas é constituído pelos pobres, ignorantes e desesperados.


Não é errado, mas é politicamente incorrecto e altamente inconveniente… Uma palavra apenas – “us” em inglês, poderá tirar os preciosos votos que darão a maioria aos democratas? O mundo aguarda, e podemos concluir filosoficamente que é com minudências que se moldam os destinos do mundo…

publicado por Perplexo às 13:00
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 21 seguidores

Veja também:

"Pesquisa Sentimental"

 

 

contador

pesquisar

posts recentes

Concurso de blogues

Voltarei

Silêncio...

Horta e Alorna

A Selecção, minuto a minu...

Cosmopolis

Millôr Fernandes

A maçã chinesa

Transigir ou não transigi...

EDP, o verdadeiro escânda...

arquivos

Janeiro 2013

Julho 2012

Junho 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

who?

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue!

subscrever feeds