Este domingo, a melhor coisa que havia para ver na TV era um documentário no National Geographic sobre lulas gigantes. Os canais portugueses, todos ao mesmo tempo e o dia inteiro, dedicaram-se ao momentoso acontecimento da transladação dos ossos da irmã Lúcia para o santuário de Fátima. Não deixa de ser impressionante como a igreja católica explora a mina de ouro (literalmente, pois muitas pessoas deixam lá os seus fios e adereços) que é a história das aparições em Fátima. Além do comércio regular, garantido nos dias de ponta de 13 de Maio a 13 de Outubro e em qualquer dia do ano, ainda há os espectáculos extraordinários, como visitas de altos dignitários, figuras públicas, ou ídolos do rock. Mas a transladação dos ossos da pobre coitada mostrou-se um autêntico recorde de bilheteira. A irmã Lúcia, convém recordar, era uma miúda camponesa, destituta e analfabeta, que em 1917 foi involuntariamente conivente na prestidigitação das aparições. Dado e perigo de ser entrevistada e poder, sabe-se lá como, dizer alguma coisa inconveniente (pois acreditamos que ela acreditava piamente que tinha visto a “Nossa Senhora”), ou apenas revelar, pela sua ignorância, que aquilo não podia ser, foi convenientemente sequestrada num convento nos confins da Espanha mais profunda. Durante esse tempo, e devido a outro autêntico milagre, tornou-se numa filósofa canónica de primeira, com conhecimentos vastos e um estilo de escrita próprio de quem estudou filologia em Coimbra. Era tal a sua sabedoria que não podia ser vista, e muito menos ouvida, por ninguém. Até mesmo os mais altos signatários da igreja precisavam de autorização especial para ouvir a sua sabedoria. Nos seus anos finais, quando já não dizia coisa com coisa, foi finalmente autorizada a regressar a Portugal e a aparecer de vez em quando; contribuía para as receitas e realmente não representava nenhum perigo. Quando morreu, as cerimónias contaram com a presença de poderes nacionais como Belmiro de Azevedo e Paulo Teixeira Pinto, para que ninguém tenha dúvidas que a crendice não é exclusiva das classes menos favorecidas. Desde 1917 até agora, a igreja passou por várias fases em relação às aparições. Inicialmente manteve uma distância oficial, receosa de que a aldrabice fosse descoberta, podendo assim negar a sua participação. (O nome dos dois padres inventores das aparições, assim como muitos pormenores de toda a história, podem ser lidos em “Fátima Desmascarada”, livro proibido pelo Estado Novo, que dificilmente se encontra.) Depois, segura com Salazar no governo e com as multidões que acorriam a Fátima, o negócio entrou em velocidade de cruzeiro, e Fátima cresceu com seminários e instalações diversas, além dos hotéis e lojas da iniciativa particular, onde se podem comprar recordações como toalhas de banho ou esferográficas com a iconografia oficial. João Paulo II acreditou modestamente ser o personagem principal do “terceiro segredo”. Bem que a hierarquia da igreja o tentou demover, pois o “terceiro segredo” tinha sido criado como um excelente recurso para o caso de uma emergência (afinal de contas o anti-cristo ainda não apareceu), e era uma estupidez gastá-lo num incidente da vida pessoal do papa. Mas o papa manda, e a historia tornou-se oficial. O actual papa, mais expedito, já fez saber que a administração do santuário vai passar directamente para o Vaticano. O bispo de Fátima andava a chamar o dalai-lama e outros heréticos como astros convidados para certos festejos, o que não servia os interesses de Roma; o bom contacto com outras religiões e a aceitação implícita de que elas também podem ser verdadeiras só pode servir para confundir os fieis e atrapalhar o negócio. Além disso, o bispo tem declarado publicamente os lucros anuais da operação (na casa dos milhões de contos), o que também não presta nenhum serviço à causa. Numa altura em que a igreja vê as suas receitas diminuídas, e não estando certamente disposta a dispensar o tesouro de valor incalculável que acumulou ao longo de vinte séculos de peditórios, chantagens, pressões políticas, venda de influências e, em última análise, venda da vida eterna, as receitas de Fátima, livres de impostos, são certamente bem vindas. Quanto à vida das lulas gigantes, que ocupou o nosso domingo, não interessa a ninguém e deve ter tido uma audiência miserável.