Declarava a locutora da RTP em off, ao mostrar os noivos a sair da Sé, que esta é uma grande tradição de Lisboa que se mantém, para depois a câmara apontar para duas velhas bisbilhoteiras, e dizia uma para a outra, mas mais para nós, “pois não concordo, os casamentos são do Santo António, têm de ser pela igreja, não podem ser casamentos no civil”. Logo aparece António Costa e a locutora sempre em off pergunta-lhe se acha mal que os casamentos possam ser de homossexuais, ao que ele diz que essa é “uma polémica ultrapassada”.
Tão poucos segundos de emissão desinteressante e tantas coisas interessantes para considerar...
Primeiro, há que dizer que as Noivas de Santo António – assim se chamavam originalmente – não são nenhuma tradição, a não ser que se queira considerar tradicional um acontecimento que começou em 1958 e esteve interrompido entre 1974 e 1996. A ideia, que partiu do Diário Popular mas teve a imediata e indispensável aprovação da “autoridade” era proporcionar um casamento pomposo e um enxoval a algumas raparigas alfacinhas cujas famílias não tinham meios. O Diário Popular, dirigido por Luís Forjaz Trigueiros, montou uma operação comercial a sério: as empresas forneciam os seus produtos, deste mobílias e electrodomésticos até enxovais e copo de água, a troco da publicidade que o DP dava ao evento. O controle dos casais escolhidos era total, indo até à virgindade das meninas.
Em 1974, por muitas razões, a “tradição” acabou. Veio a ser ressuscitada por João Soares, em 1996, já nos moldes actuais. Ou seja, passou a chamar-se Casamentos de Santo António, deixou de haver controle de virgindades e que tais, e foram incluídos casamentos civis ou de outras religiões. Num acordo com a Igreja Católica, ficou determinado que haveria pelo menos o dobro mais um casamentos na igreja. Daí que este ano tenham sido 11 pela igreja e cinco só no registo – as velhinhas reaccionárias não têm razão em queixar-se.
Segundo, não deixa de dar que pensar esta dicotomia entre as atitudes sociais a favor das minorias que sempre foram bandeira do PS e a posição quase anti-social do partido desta última fase socratiana – retórica à parte. Ao ver o António Costa a dar como ultrapassada a questão (infelizmente estas questões nunca estão ultrapassadas, porque quem é contra não desiste) – ao ver o António Costa, lembrei-me de como o PS era um partido sempre à frente, a favor dos da interrupção voluntária da gravidez, casamentos homossexuais, da entrega de seringas aos toxicodependentes, etc. etc. Hoje em dia lembramo-nos do PS por razões muito menos simpáticas.
Terceiro, vale a pena lembrar que as Marchas Populares, ligadas às noivas como festas principais de Santo António, também não são uma “tradição” por aí além. Sabe-se que havia uma coisa parecida no século XVIII, mas não se sabe bem como era; o formato actual foi inaugurado em 1934, por iniciativa de Leitão de Barros, já integrado nas festas promovidas pelo Estado Novo para que o povinho se divertisse com tudo controlado. Na época fizeram sucesso e toda a cidade vinha para a rua vê-las; hoje em dia são um evento folclórico com intuitos turísticos, e parece bastante pobre e desenxabido. Foi preciso meter brasileiros ao barulho para dar alguma alegria, mas mesmo assim já ninguém se diverte a ver meninas ataviadas como se fossem ranchos folclóricos, com arquinhos e balões...