Na época do ataque do 11 de Setembro, era João Soares Presidente da Câmara de Lisboa, quem se lembra?
Pois bem, Soares encomendou ao cartoonista Augusto Cid um monumento de homenagem às vítimas do 11 de Setembro. Cid saiu-se bem e concebeu uma espécie de árvore metálica que representa uma parte da fachada de uma das torres, com quatro colunas. A peça foi colocada, muito apropriadamente, na Avenida Estados Unidos, no cruzamento com a Avenida de Roma. Já não se encontra nenhuma referência, mas certamente que terá sido inaugurada com pompa e circunstância e a presença do embaixador dos E.U.A.
Hoje, dez anos depois do ataque lá está – o metal manchado de ferrugem, mas ainda em bom estado. Uma reportagem na SIC Notícias (tiro-lhe o chapéu por esta trouvaille) começa por salientar que ninguém lhe liga nenhuma nem foi colocar lá flores a assinalar a data.
Mas o melhor veio depois, com as perguntas a três transeuntes, que aliás assinalaram que moram nas redondezas. A jornalista, em off, inquiria os entrevistados a pouca distância do monumento, que se via bem ao fundo. Note-se que até um ceguinho conseguiria perceber a forma do revestimento das torres, com as colunas do andar térreo a juntarem-se numa espécie de ogiva gótica. Na base de mármore preto, uma enorme placa explica pormenorizadamente do que se trata.
Senhor sessentão, pele escura, até podia ser timorense:
— Aquilo ali? Não sei... Acho que é sobre Timor.
— Sobre Timor?
— Sim, uma homenagem ao povo de Timor.
Senhora sessentona, tipo dona de casa apressada:
— Não, não sei o que é...
— Já reparou nele? O que acha que representa?
— Já, já reparei... mas não sei. É uma árvore, talvez.
Jovem de barbicha, tipo estudante de férias:
— Não faço ideia.
— Mas nunca foi lá ver o que é?
— Não, por acaso passo todos os dias por aqui, mas nunca fui lá ver.
Era caso para reformular a questão do primeiro parágrafo: quem foi João Soares? E acrescentar outra: O que são os Estados Unidos?
Não deixa de ser extraordinário que na capital de um pais com quase dois telemóveis por habitante, 99% de lares com televisão e mais de 40% com Internet, haja pessoas para quem os atentados do 11 de Setembro não existiram.
E nós a pensar que há acontecimentos universais!
É caso para dizer que cada vez nos parecemos mais com os Estados Unidos....
Jorge Soares
Mas não devíamos. Eles só têm 200 anos, nós 900. Afinal a antiguidade não serve para nada...
De Gena Resende a 12 de Setembro de 2011
Dá para perceber o porquê da indiferença das pessoas por tudo o que as rodeia, sejam monumentos, seja o lixo nas ruas ou no meio ambiente (é incrível, mas as pessoas continuam a "largar" tudo o que querem nos areais das praias, nos passeios pedestres que as autarquias vão inventando para entreter os maus cidadãos), no fundo as pessoas não querem mesmo saber de nada a não ser das suas vidinhas, e o resto é conversa.
"Aquilo" aconteceu lá longe...não se viu com os olhos, não merece mais do que a simples e indiferente contemplação nos diferentes noticiários televisivos.
De Manuel C. O. a 14 de Setembro de 2011
Meu caro:
Não poderão os transeuntes conhecer bem os atentados de 11 Setembro, mas pura e simplesmente desconhecer o monumento?
Aproveito para referir que aprecio muito os seus escritos, e valorizo o modo como coloca sempre em perspectiva as questões. Nesse sentido venho deitar uma achazinha para a fogueira: queira por favor verificar o conteúdo da estatística que se segue
http://www.starvation.net/terrorism-vs-starvation-chart.htm
De
Sara a 15 de Setembro de 2011
Também vi essa reportagem na televisão e fiquei sem reacção perante tal respostas.
Tinha 10 anos na altura dos atentados mas lembro-me perfeitamente daquele dia; a forma do monumento, pelo menos A MIM, não me deixa qualquer dúvidas.
Mas enfim, não será a única situação, infelizmente.
By the way, parabéns pelo destaque! :)
De Gena Resende a 15 de Setembro de 2011
Ora bem, o destaque. merecido!!
Para mim ainda mais pelo "Gota a Gota", que sinceramente acho sublime!!! e o "RTP despida", do que por este artigo, pertinente sim e como disse no meu comentário anterior, fruto da muita indiferença do povo. Este habitua-se a ver uma estátua, um monumento, mas como sabem tão pouco da História do seu país, pouco se importam de quem é a estátua ou o monumento. Ainda há tempos num telejornal, faziam exactamente essa pergunta aos transeuntes, de quem era a estátua ou porque tinha aparecido aquele monumento, etc...quem tinha sido o rei e qual o seu cognome...ninguém sabia, ou melhor das dez pessoas entrevistadas, duas saberiam pelo menos parcialmente a resposta. Isso mostra a indiferença e mostra acima de tudo que a maioria dos portugueses não sabe da História, das mais longas do mundo, nem do legado dos nossos antepassados. Um bom tema para um concurso televisivo mas que também quem os cria, pouco sabe a não ser perguntas chavão.
OParabéns pelo merecido destaque e mais uma vez pela "pena" afiada!!!
Gena Resende
De
golimix a 16 de Setembro de 2011
Sabe o que me parece?
Que anda para muita gente com "problema crónico de distração"
Será que se pega?
Espero bem que não...
Gostei do blogue!
Inté
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