Steve Jobs morreu há um mês, ao fim de meia dúzia de anos de intensa exposição mediática – para ele e para a “sua” Apple Computer. Sempre teve os seus seguidores fanáticos, um pequeno grupo de cinco por cento dos utilizadores de computadores pessoais, que se sentiam cercados por um universo hostil e rebarbativo de PCs Microsoft. Fora da seita, isto é, a grande maioria da população, ignorava completamente a existência de um sistema operacional diferente do Windows. Diziam os macmaníacos, e com razão, que Jobs tinha lançado todos os avanços em computação pessoal – primeiro computador doméstico, o rato, o interface gráfico, a diskete rígida 3 ¼ - e que a Microsoft se limitava a copiá-los, e mal, anos depois. O facto é que os computadores eram muito caros, não faziam multitasking, não davam acesso ao código e quase não havia software para eles. Nesses anos de semi-obscuridade, Jobs também criou o melhor e mais bonito computador gráfico de sempre, o NEXT, que era ainda mais caro e mais bonito e não vendeu nada.
Tudo mudou com o lançamento do iMac, em 1998, desenhado por Jonathan Ive. E o mundo não Apple tomou conhecimento da marca em 2001, com a mudança radical do negocio da música através do iPod. A partir desse sucesso, os Macs portáteis começaram a vender cada vez mais, e depois o iPhone veio revolucionar o mercado dos telefones e o iPad criou uma nova gama de produtos que ainda não se sabe bem qual será.
O facto é que em 2010 a Apple ultrapassou a Microsof como empresa tecnológica mais importante do mundo e quase se tornou a maior empresa do planeta, só atrás da Exxon. Mas, mais do que as vendas, a Apple e Steve Jobs tornaram-se sinónimo universal de criatividade, uma mistura insuperável de grande tecnologia e bom gosto. Os produtos Apple são chiques, cool, sinónimos de modernidade. Toda a gente os quer e os da concorrência, feitos à pressa para aproveitar a novidade, não têm o mesmo toque, o peso, a estética e a atitude, mesmo que as especificações sejam idênticas, ou até melhores.
Pouco se sabia sobre a vida particular de Jobs. Mas acaba de sair uma biografia profissional e bem documentada, assinada pelo especialista Walter Isaacson. Feita a partir de 40 horas de gravações com Steve e entrevistas a família, parceiros e amigos, apresenta o homem completo, para lá do seu trabalho – a pessoa, o familiar, o amigo. E o balanço não é nada favorável. Mostra um homem teimoso, obcecado, frio com os seus próximos, nada generoso, injusto nas amizades, violento com os colaboradores, autocrático e arrogante. Fez coisas horríveis, como negar a existência de uma filha do primeiro casamento e recusar-se a conhecer o pai natural; e coisas estúpidas como seguir a dieta vegan e não querer tratar clinicamente o cancro que o mataria. Sem ser técnico ou designer, impunha ditatorialmente os seus conceitos (maravilhosos, de facto) aos técnicos e designers que o aturavam. Controlava tudo e todos e chamava a si os louros de aparelhos concebidos por uma equipa dirigida militarmente. Não fazia donativos para caridade nem ajudava os necessitados.
Nada do que agora se sabe sobe o Steve Jobs pessoa retira a sua qualidade de génio. Mostra-o até à luz em que tem de ser visto: como um ser humano, com os seus defeitos e qualidades. Os privilegiados não foram os poucos que privaram com ele, mas são os milhões que beneficiam com a sua criatividade.
Para nós, pessoas comuns, não deixa de ser consolador saber que os génios não são seres perfeitos. Afinal de contas, em todos e cada um, a normalidade não exclui a hipótese da genialidade. Mesmo que nunca se manifeste.